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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

CHAMA-ME PELO TEU NOME (Call Me by Your Name) de Luca Guadagnino

A História: Itália 1983. Férias de Verão. A família de Elio, um jovem de 17 anos, recebe em sua casa o estudante americano Oliver, que vai ajudar o pai de Elio nas suas pesquisas arqueológicas. Apesar de algum antagonismo inicial, Elio e Oliver apaixonam-se um pelo outro.

O Filme: Há filmes assim, em que tudo encaixa na perfeição e cujo resultado final fica connosco para sempre. O realizador Luca Guadagnino capta com sensibilidade uma belíssima história de amor e com nostalgia a atmosfera dos Verões da nossa juventude, de uma época em que a vida era mais simples e as mentes mais abertas.
O filme é como que uma suave brisa de Verão que nos inebria com a sua quente fotografia, com os aromas da natureza, o calor dos personagens, a banda sonora perfeita, a sensualidade à flor da pele, os apontamentos certos de humor... é um filme que nos desperta todos os sentidos e nos faz sentir apaixonados, com momentos hilariantes pelo meio, como a cena do pêssego (nunca mais vou olhar para um pêssego da mesma maneira).
Adaptando um romance de André Aciman, que não li, James Ivory tem um regresso prodigioso ao cinema, dando-nos um argumento fabuloso que combina na perfeição com a realização de Guadagnino. Não nos podemos esquecer que foi Ivory que, em 1987, nos deu MAURICE, um clássico do cinema gay.
O elenco é verdadeiramente notável. O jovem Timothée Chalamet é uma verdadeira revelação como Elio, transmitindo tudo o que um adolescente sente na descoberta da sua sexualidade, um poço de emoções em conflito, pronto a explodir em qualquer momento. A seu lado o “borracho” do Armie Hammer é muito mais que uma cara e um corpo perfeito; no “The Hollywood Repoorter” dizem sobre a sua interpretação algo que não podia ser mais acertado: “quando uma estrela se transforma em actor” e que actor! A química entre Chalamet e Hammer é tão natural como a sua sede e ambos se entregam apaixonadamente aos seus personagens. Os olhares furtivos, os toques tímidos, o desejo latente... eles são o par perfeito! A câmara também está apaixonada por eles e filma os seus corpos de forma elegante, sensual e acariciante,
Brilhante é, também, Michael Stuhlbarg como pai de Elio. Um personagem bem-disposto e que, perto do final, tem um dos mais emocionantes discursos que ouvi nos últimos anos e que me pôs a chorar. Uma verdadeira cena de antologia! Amira Casar como a sempre atenta mãe e Esther Garrel como a namorada apaixonada de Elio, também vão muito bem.
Isto é cinema de grande qualidade! Não se assustem por ser uma história de amor gay entre um puto de 17 anos e um homem de 24 anos, acreditem que é tudo filmado com cuidado, amor e um carinho puro pelos personagens. É como um poema romântico e lírico em forma de filme, inesquecível! 

Classificação: 9 (de 1 a 10)




sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantastica) de Sebastián Lelio

A História: Marina, uma jovem transexual, tem uma relação com Orlando, um senhor que tem idade para ser pai dela. Quando este morre repentinamente, a família dele quer a todo o custo afastar Marina do velório e funeral.

O Filme: Uma boa história, que foca um problema raramente abordado no cinema, realizada com honestidade por Sebastián Lelio, que não explora o tema da transexualidade de forma gratuita. No entanto senti que falta alma ao filme, é tudo muito casual, tudo muito tépido. Falta-lhe humor ou então ter uma componente mais dramática. Consigo perfeitamente imaginar o que Pedro Almodovar faria com este material.
Daniela Vega, uma actriz transexual, dá dignidade, fragilidade e serenidade a Marina; mas a sua personagem é demasiada passiva perante a vida e teria gostado de a ver perder as estribeiras de vez em quando (só acontece uma vez). O restante elenco dá credibilidade às personagens que a rodeiam.
Estive todo o filme à espera que algo de verdadeiramente dramático acontecesse e o mistério da chave é um vazio clímax, ou será que existe algum significado aqui que me escapou? Uma vida vazia? Não sei, talvez... Marina tem uma tendência natural de escapar para o seu mundo de fantasia, mas algumas das cenas em que isso acontece pouco ou nada acrescentam ao filme, como por exemplo a dança no bar ou a caminhada contra o vento. Um pouco mais de garra e paixão poderiam ter feito deste filme um excelente drama e Daniela Vega merecia isso. Felizmente para ela, o filme termina de forma digna.

Classificação: 5 (de 1 a 10)



terça-feira, 26 de dezembro de 2017

KING COBRA de Justin Kelly

A História: Graças ao produtor Stephen, o jovem Sean transforma-se com grande êxito em Brent Corrigan, uma nova estrela do cinema porno gay. As coisas entre os dois não correm bem e Brent tenta quebrar o contrato assinado com Stephen. Ao mesmo tempo Joe, outro produtor, quer transformar o seu namorado Harlow numa estrela; para isso precisa que este faça um filme com Brent, custe o que custar.

O Filme: Retrato negro dos bastidores do cinema porno-gay, baseado numa história verídica e com banda sonora igual às produções que retrata. Havia aqui material para um bom filme, mas falta-lhe dramatismo e, principalmente, uma melhor direcção de actores.
Apesar de haver um fio condutor, a realização de Justin Kelly (o mesmo de I AM MICHAEL) parece ser feita de cenas soltas, sem uma continuidade que as una de forma a transformaram-se num verdadeiro drama. A nenhum dos personagens é dada grande densidade psicológica, sendo pouco mais que esboços a necessitarem de serem preenchidos com emoção e vida.
As interpretações do elenco estão, com excepção de Christian Slater como Stephen, ao nível das dos filmes porno-gay. No papel de Brent, Garrett Clayton é um menino bonito, irritante, arrogante e vazio. É de louvar o apoio que James Franco tem dado ao cinema gay, mas o seu Joe é forçado, por vezes gratuito. Como o seu amante, Keegan Allen parece estar pouco à vontade, mas isso também pode ter tudo a haver com o personagem transtornado que interpreta. Voltando a Christian Slater, este consegue dar alguma dignidade ao seu papel e o seu desejo por meninos mais novos é palpável. Molly Ringwald e Alicia Silverstone são as secundárias presenças femininas.
Os corpos desnudados dos actores ornamentam a acção, com alguns momentos mais quentes para nos manter entretidos, mas tudo ao nível do mais “limpinho” softcore. Senti que este filme foi uma oportunidade perdida de nos dar uma visão negra e dramática do que se passa por detrás das câmaras do cinema porno.

Classificação: 4 (de 1 a 10)




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements par Minute) de Robin Campillo

A História: No início dos anos 90, em Paris, um grupo LGBT activista de nome ACT UP, luta para que o governo e as farmacêuticas façam algo para combater a epidemia da SIDA. Sean, um seropositivo, é um dos membros fundadores do grupo e Nathan um dos novos; juntos encontram o amor.

O Filme: Apesar de tudo o que se tem dito, escrito e filmado sobre a SIDA, a triste realidade é que continua a ser vista como uma doença quase exclusiva dos gays e drogados. Daí ser extremamente importante que se continuem a fazer filmes como este, que lembrem a todos que a SIDA ainda existe e que ainda há muito a fazer para a combater.
Felizmente, mas mãos do realizador/argumentista Robin Campillo (que já nos tinha dado o interessante EASTERN BOYS) não é um panfleto político, mas sim uma visão muito simples, sem qualquer tipo de subterfúgios, sobre a realidade de uma época onde o fantasma mortal da SIDA espreitava em cada canto e onde o desconhecimento da mesma levava à sua elevada propagação.
Nessa altura, na comunidade LGBT, muitos foram os que morreram e Campillo filma-os com dignidade, respeito e sensibilidade, nunca procurando o efeito choque; os toques de humor ajudam bastante a fugir ao dramatismo do tema ou à possível lamechice.
O elenco, um verdadeiro exemplo de talento e naturalismo, é todo ele excelente. Destaque para um extraordinário Nahuel Pérz Biscayart como Sean, um jovem cheio de vida, mesmo sabendo que a sua morte pode estar próxima. No papel de Nathan, Arnaud Valois é reservado e apaixonado. Adéle Haenel é um furacão de energia como Sophie e Antoine Reinartz dá-nos um por vezes irritante, por vezes simpático, mas sempre bem humorado Thibault,.
Como seria de esperar, o filme tem algumas cenas de sexo, mas estas nunca são gratuitas e são filmadas com sinceridade e sem medos. Os actores que participam nelas estão completamente à vontade, dando-lhes grande veracidade.
Apesar de falar da morte, é um filme sobre o estar vivo e como devemos lutar pelos nossos direitos. A morte assombra a comunidade LGBT, mas os seus membros não se entregam a ela, continuando a viver as suas vidas e a ter esperança num futuro melhor. É um filme onde uma cena de masturbação consegue ser comovente e, sem querer revelar o final, onde um falecimento não é visto como uma tragédia, mas sim como mais uma razão de luta.
O filme peca por ser demasiado longo (talvez as cenas da discoteca pudessem ser mais curtas), mas que isso não os desmotive de o irem ver. É um filme importante, não é chato e o jovem elenco merece a vossa visita.

Classificação: 8 (de 1 a 10)



domingo, 10 de dezembro de 2017

O MEU NOME É MICHAEL (I Am Michael) de Justin Kelly

A História: Michael Glatze é um activista gay que vive com o seu namorado e com o amante de ambos. Um dia, provocado por um susto relacionado com a sua saúde, tem uma espécie de epifania religiosa, renuncia à sua homossexualidade e acaba por se tornar um “pastor” cristão.

O Filme: A história verídica de Michael Glatze causou polémica, mas duvido que este filme o faça. A seu favor tem o facto de o realizador/argumentista Justin Kelly (que viria a dirigir James Franco de novo em KING COBRA) não ter medo de mostrar os seus personagens masculinos a terem sexo uns com os outros, apesar de ser tudo muito soft. Por outro lado, a história arrasta-se de forma aborrecida e esperava sentir-me mais revoltado com o personagem.
No papel de Michael, James Franco está igual a si próprio, naquela linha tipo janado/depressivo, sempre com ar de chateado. O facto de ele ser pouco convincente, leva-nos a olhar para Michael como se este fosse uma fraude, o que provavelmente é verdade. Nas mãos de Franco, nunca acreditamos que Michael tenha conseguido renunciar aos seus desejos sexuais por membros do mesmo sexo.
O aspecto mais curioso é a forma como Michel deturpa os escritos da Bíblia, de forma a que estes se coadunem com aquilo que quer da vida (sendo o mais ridículo aquele em que ele interpreta os seus amantes como a santíssima Trindade). Sempre me fez confusão como é que as pessoas usam a religião para justificar as suas acções ou, por acharem que Deus fala com elas, têm o direito de julgar os outros ou de os obrigar a serem como elas. Claro que isto precisava de um filme dramaticamente mais forte que este, mas pelo menos o assunto é discutido num filme que poderá atrair um público mais diverso que a comunidade LGBT. Este é o aspecto mais positivo do filme.
Quanto ao restante elenco, Zachary Quinto não vai mal como o namorado de Michael, mas confesso que acho este actor um pouco irritante. Como o amante, Charlie Carver tem um ar simpático e facilmente cria empatia connosco, infelizmente o seu personagem tem pouco “tempo de antena”. Emma Roberts é Rebekah, a sonsa que se apaixona perdidamente por Michael e que o segue como se ele fosse um deus.

Classificação: 3 (de 1 a 10)