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quarta-feira, 6 de maio de 2026

MINHA QUERIDA SEÑORITA (MI QUERIDA SEÑORITA) de Fernando González Molina

Antes de começar a falar deste filme, para quem não souber, aqui fica uma explicação para o que é uma pessoa intersexo – “são pessoas que nascem com características sexuais -- incluindo genitais, padrões cromossômicos e glândulas, como testículos e ovários --, que não se encaixam nas noções binárias típicas de corpos masculinos ou femininos.” 

Antigamente o termo utilizado era “hermafrodita”, que caiu em desuso e é considerado ofensivo. Este termo teve origem numa numa história da mitologia grega: “Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite, ao resistir à ninfa Salmacis, teve o seu corpo fundido com o dela num lago, resultando num ser andrógino — homem e mulher numa só natureza.”

Depois da “lição didáctica” vamos ao filme!

Esta nova versão de um filme espanhol de 1972, que foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, conta-nos a história de Adela. Uma jovem mulher, que sempre sentiu que havia algo de estranho com ela; um dia, contra a vontade da sua mãe, consulta um ginecologista e descobre que nasceu intersexo, que a sua família optou por ela ser do sexo feminino e esconder-lhe esse facto. Revoltada, procura uma nova vida e tentar aceitar-se a si própria.

Acredito que, em 1972 esta história deve ter causado bastante polémica, hoje duvido que o faça. O realizador dá-nos um retrato carinhoso, talvez demasiado simplicista, sobre uma pessoa a tentar descobrir qual a sua verdadeira identidade. É fácil criar empatia com Adela e antipatia com a sua mãe, mas a sua relação nunca chega a ser devidamente dramatizada e o filme perde um pouco por isso. Depois, a interessante galeria de personagens queer que rodeiam Adela, incluindo um padre muito sexy (Paco León) e um interesse amoroso (Anna Castillo), é toda muito positiva… ou seja, gostaria que o filme fosse mais dramático, mas mesmo assim gostei.

No papel principal, Elisabeth Martínez (que, tal como a sua personagem, também é intersexual) tem aqui a sua estreia cinematográfica e vai bem no seu papel. O restante elenco, tem o talento e a naturalidade a que os actores espanhóis nos habituaram.

Um filme interessante, sobre um assunto raramente abordado.

Classificação: 6 (de 1 a 10)




terça-feira, 5 de maio de 2026

ETERNIDADE ELECTRO de Pedro Sousa Loureiro aka Feathering e Miguel Stichini

A equipa responsável pela AVÓ MAGNÉTICA está de volta aos nossos palcos. Desta vez, em vez de recordarem as suas avós, falam-nos dos seus amores de Verão, que por vezes se estendem pelas outras estações (ou talvez não).

Tal como na peça anterior, estamos perante uma explosão energética e imersiva, que transcende as encenações convencionais, convidando-nos à participação, mas sem forçar nada. A maluquice é muita, com música, dança, saltos e, penso eu, com muito improviso à mistura; o resultado é que saímos do teatro bem-dispostos e a sentirmo-nos muito “eléctricos”. 

Os quatro actores em cena, devem ter tomado um Red Bull antes de entrarem em palco. A sua energia é infinita e o seu humor facilmente nos conquista. Presente numa vídeo-entrevista do AVÓ MAGNÉTICA, Alex Azevedo tem agora uma simpática presença em palco. Margarida Cardeal e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering são completamente loucos e eu adoro isso. Em quase estilo “diva” da Motown, Bárbara Wahnon foi, para mim, uma agradável surpresa e presenteia-nos com um dos momentos altos do espectáculo, a sua canção “Dialetos de Amor”, que julgo ser também de sua autoria.

Acredito que já todos tivemos amores de Verão, e, tenham estes ou não, é sempre bom recordar as coisas boas que eles nos proporcionaram. Ao assistir à peça, no meu caso, houve uma memória que me veio à mente. Devia ter para aí vinte e poucos anos, fui acampar sozinho para Peniche e o meu caminho cruzou-se com um moço estrangeiro de nome Mario. Com muita pena minha, não fizemos nada mais que trocar uns beijos e ele teve de partir no dia seguinte. Mas antes de se ir embora, ainda deixou um bilhete romântico na minha tenda, o qual reproduzo aqui:

“Love comes from the most unexpected places; from someone’s eyes you’ve never met, who wants to get to know you; from someone’s smile you can’t forget, that makes your heartbeat drummed like a train, that gives you warm feelings and an excited mood. 

Hope to see you, really do. 

Kiss from Mario”

Infelizmente naquele tempo não havia internet e nunca mais soube nada dele.

Voltando à peça, a sua boa disposição e espírito de liberdade merecem ser vividos pelo público e espero que a chamada comunidade queer lhe dê a atenção que merece.

Elenco: Alex Azevedo, Bárbara Wahnon, Margarida Cardeal, Pedro Sousa Loureiro aka Feathering, Thomas Attar 

Equipa Criativa: Criação, Produção e Realização: Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Texto: Miguel Stichini e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Música Original: Thomas Attar • Participação em Video: Miguel Stichini • Fotografia: Alípio Padilha e Luísa Martins • Desenho de Luz: Miguel Cruz • Operação de Som: Érica Arce • Operação de Luz: Miguel Gregório

Fotografia: Alípio Padilha 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O CATIVO (EL CAUTIVO) de Alejandro Amenábar

Antes de escrever o famoso “Don Quixote”, Miguel de Cervantes esteve cativo na Algéria, onde o seu “dono” era um poderoso Pachá, que se interessou por ele em vários aspectos. É durante o seu tempo em cativeiro que ele começa a contar histórias. Com excepção do seu “Dom Quixote” (que nunca li, mas vi o filme na sua versão musical), confesso que desconhecia totalmente a vida de Miguel de Cervantes; graças a este drama histórico, já fiquei a saber um pouco. 

Partindo do princípio que os factos retractados no filme correspondem à verdade, é curioso perceber de onde veio a sua inspiração para os personagens principais do seu “Dom Quixote”. Mas, para mim, o mais interessante é a história de amor/atracção entre Cervantes e o Pachá (um muito jeitoso e sexy Alessandro Borghi) e a forma sensual como evolui; não fazia a mínima ideia de que Cervantes era gay ou pelo menos bissexual. Na verdade, o filme tem uma atmosfera muito queer, revelando-nos uma cidade argelina onde o sexo flui sem tabus. É também interessante ver como a sombra da religião católica se faz sentir e não de forma muito positiva. 

No papel de Cervantes, Julio Peña, com o seu olhar de “carneiro mal morto”, faz lembrar o jovem Joseph Fiennes; o seu Cervantes é um homem apaixonado pela vida e pelo poder das palavras. Apesar de ter achado o filme demasiado longo, a verdade é que nunca aborrece e é um bom exemplo do género.

Classificação: 6 (de 1 a 10)


quarta-feira, 11 de março de 2026

YOUNG HEARTS - O PRIMEIRO AMOR (YOUNG HEARTS) de Anthony Schatteman















Elias, um puto de 12/13 anos, começa a ter sentimentos pelo seu novo vizinho Alexander, um rapaz da sua idade, e acaba por se apaixonar por ele, não sabendo muito bem como lidar com isso.

A inocência e o amor andam de mãos dadas neste delicioso drama romântico. A realização de Anthony Schatteman é cuidada e revela um enorme amor pelos seus personagens. No papel de Elias, Lou Goossens é fantástico como o puto que não sabe o que fazer com os seus sentimentos, entre a vergonha, o amor e o receio do que os outros possam pensar. Como Alexandre, Marius DeSaeger é um puto com a sua sexualidade bem resolvida e sem medos. 

A história desenrola-se com sensibilidade, apontamentos de humor e, lá mais para o final, algumas lágrimas emocionais. Sabe bem ver um filme destes que fala sem medos de ser-se gay, e que o faz com grande respeito e carinho. Saí do cinema com o coração cheio. A não perder!

Classificação: 8 (de 1 a 10)


























terça-feira, 10 de março de 2026

PILLION de Harry Lighton

Colin é um homem gay, tímido e um pouco inocente, que um dia conhece Ray, um motoqueiro giraço que se interessa por ele e o torna o seu “escravo”. Nasce assim uma relação de poder e submissão entre os dois.

Não, “pillion” não é uma prática sexual, é o nome dado ao lugar de trás (ou do pendura) das motos; lugar que no filme é ocupado por Colin. Mas não se preocupem, há diversas práticas sexuais e bem explícitas neste drama gay, onde um homem se deixa subjugar por outro, num jogo sado-maso que poderá deixar algumas pessoas desconfortáveis. Diria que é um filme forte, corajoso, que julgo não deixará ninguém indiferente. 

Nos papéis principais, Harry Melling (que entrou nos Harry Potters) é uma revelação como Colin e Alexander Skarsgård é um deus sexual capaz de despertar o guloso que há em nós. 

Decididamente, não é um filme para mentes fechadas.

Classificação: 6 (de 1 a 10)










10 DANÇAS (TEN DANCE) de Keishi Otomo











Shinya Suzuki é especialista em danças latino-americanas (samba, rumba, etc), Shinya Sugiki é especialista em danças clássicas (valsa, fox-trot, etc) e são uma espécie de rivais. Um dia, Sugiki desafia Suzuki para competirem no “10 Danças”, propondo que cada um ensine ao outro (e às suas parceiras) o tipo de dança em que são especialistas. Durante as aulas apaixonam-se um pelo outro.

O universo das danças de salão serve de cenário a uma história de amor contida e o resultado é agradável à vista e ao coração. Nos papéis principais, Ryoma Takeuchi e Keita Machida não podiam ser mais diferentes, um “caliente” o outro “frio”, mas quando dançam juntos o erotismo e a sensualidade transpiram por todos os seus poros e, claro, acabamos a torcer para que o seu amor se concretize. Tudo isto com muita dança e a “pirosice” associada ao universo das danças de salão. Gostei!

Classificação: 6 (de 1 a 10)








sábado, 28 de fevereiro de 2026

BROKEBACK MOUNTAIN de Ashley Robinson

No dia 09.02.2006 estreou nos nossos cinemas O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. Com uma série de nomeações para os Oscars e um elenco de estrelas, causou furor com a sua história de amor homossexual e até o público heterossexual fez questão de o ir ver. Para ser honesto, quando o vi não me conquistou; achei-o um pouco aborrecido e muito soft; com o passar do tempo melhorou um pouco na minha memória, mas não muito. 

Agora, 20 anos depois, chega aos nossos palcos uma versão teatral a partir do conto de Annie Proulx, o que quer dizer que não é propriamente uma adaptação do filme. O resultado? Uma agradável surpresa!

Ennis (Duarte Melo) e Jack (Rui Pedro Silva) são dois jovens cowboys que se conhecem num Verão em que ambos vão tomar conta de ovelhas em Brokeback Mountain. Sozinhos na montanha, acabam por se apaixonar, mas sabem que o seu amor não pode ser visto pelos outros e ambos acabam por casar com mulheres. Mas a sua paixão, contra tudo e contra todos, continua.

Nas mãos de Daniel Gorjão, esta história de um amor proibido é encenada de forma muito simples e (será que posso dizer isto?) plasticamente fotográfica. A ver se me faço entender. Durante toda a peça, há momentos em que tudo fica estático, como se tratasse de uma fotografia. Esses momentos ajudam a criar dramatismo, movem a acção e parece que fecham os protagonistas sobre si próprios. É como se a sua paixão tivesse de ser contida. Visualmente, é tudo muito cuidado, o nudismo não é gratuito e as cenas de amor são emotivas. A introdução de canções que vão pontuando a história, parece um pouco estranho ao início, mas depois faz todo o sentido.

Carla Galvão empresta a sua bonita voz às canções e marca presença em palco. Joana Ribeiro e João Candeias, que se desdobram em vários papéis, são quase meros figurantes, ofuscados pela paixão de que, juntamente com Galvão, são testemunhas silenciosas. E depois temos Duarte Melo e Rui Pedro Silva que se entregam aos seus personagens com naturalidade, química natural e sem vergonha. A sua paixão é intensa, é verdadeira e os seus medos também o são.

Uma bonita história de amor assombrada pelo medo e que termina em tragédia. Faz-nos pensar porque é que, ainda hoje, o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é condenado por tanta gente. Se conseguirem bilhetes não percam!

Elenco: Carla Galvão, Duarte Melo, Joana Ribeiro, João Candeias, Rui Pedro Silva

Equipa Criativa: Encenação e Direcção Plástica: Daniel Gorjão • Texto: Ashley Robinson, a partir do conto de Annie Proulx • Tradução: Ana Sampaio • Música: Dan Gillespie Sells • Assistente de Encenação: Maria Jorge • Desenho de Luz e Direção Técnica: Sara Garrinhas • Direção Musical: Miguel Lucas Mendes • Vídeo de Cena:  Rafael Bernal • Execução de Cenografia: FPSolutions • Fotografia de Cartaz: Pedro Macedo – Framed Photos • Produção Executiva: Teatro do Vão 

Fotos: Alípio Padilha / Vasco Coelho