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segunda-feira, 4 de maio de 2026

O CATIVO (EL CAUTIVO) de Alejandro Amenábar

Antes de escrever o famoso “Don Quixote”, Miguel de Cervantes esteve cativo na Algéria, onde o seu “dono” era um poderoso Pachá, que se interessou por ele em vários aspectos. É durante o seu tempo em cativeiro que ele começa a contar histórias. Com excepção do seu “Dom Quixote” (que nunca li, mas vi o filme na sua versão musical), confesso que desconhecia totalmente a vida de Miguel de Cervantes; graças a este drama histórico, já fiquei a saber um pouco. 

Partindo do princípio que os factos retractados no filme correspondem à verdade, é curioso perceber de onde veio a sua inspiração para os personagens principais do seu “Dom Quixote”. Mas, para mim, o mais interessante é a história de amor/atracção entre Cervantes e o Pachá (um muito jeitoso e sexy Alessandro Borghi) e a forma sensual como evolui; não fazia a mínima ideia de que Cervantes era gay ou pelo menos bissexual. Na verdade, o filme tem uma atmosfera muito queer, revelando-nos uma cidade argelina onde o sexo flui sem tabus. É também interessante ver como a sombra da religião católica se faz sentir e não de forma muito positiva. 

No papel de Cervantes, Julio Peña, com o seu olhar de “carneiro mal morto”, faz lembrar o jovem Joseph Fiennes; o seu Cervantes é um homem apaixonado pela vida e pelo poder das palavras. Apesar de ter achado o filme demasiado longo, a verdade é que nunca aborrece e é um bom exemplo do género.

Classificação: 6 (de 1 a 10)


quarta-feira, 11 de março de 2026

YOUNG HEARTS - O PRIMEIRO AMOR (YOUNG HEARTS) de Anthony Schatteman















Elias, um puto de 12/13 anos, começa a ter sentimentos pelo seu novo vizinho Alexander, um rapaz da sua idade, e acaba por se apaixonar por ele, não sabendo muito bem como lidar com isso.

A inocência e o amor andam de mãos dadas neste delicioso drama romântico. A realização de Anthony Schatteman é cuidada e revela um enorme amor pelos seus personagens. No papel de Elias, Lou Goossens é fantástico como o puto que não sabe o que fazer com os seus sentimentos, entre a vergonha, o amor e o receio do que os outros possam pensar. Como Alexandre, Marius DeSaeger é um puto com a sua sexualidade bem resolvida e sem medos. 

A história desenrola-se com sensibilidade, apontamentos de humor e, lá mais para o final, algumas lágrimas emocionais. Sabe bem ver um filme destes que fala sem medos de ser-se gay, e que o faz com grande respeito e carinho. Saí do cinema com o coração cheio. A não perder!

Classificação: 8 (de 1 a 10)


























terça-feira, 10 de março de 2026

PILLION de Harry Lighton

Colin é um homem gay, tímido e um pouco inocente, que um dia conhece Ray, um motoqueiro giraço que se interessa por ele e o torna o seu “escravo”. Nasce assim uma relação de poder e submissão entre os dois.

Não, “pillion” não é uma prática sexual, é o nome dado ao lugar de trás (ou do pendura) das motos; lugar que no filme é ocupado por Colin. Mas não se preocupem, há diversas práticas sexuais e bem explícitas neste drama gay, onde um homem se deixa subjugar por outro, num jogo sado-maso que poderá deixar algumas pessoas desconfortáveis. Diria que é um filme forte, corajoso, que julgo não deixará ninguém indiferente. 

Nos papéis principais, Harry Melling (que entrou nos Harry Potters) é uma revelação como Colin e Alexander Skarsgård é um deus sexual capaz de despertar o guloso que há em nós. 

Decididamente, não é um filme para mentes fechadas.

Classificação: 6 (de 1 a 10)










10 DANÇAS (TEN DANCE) de Keishi Otomo











Shinya Suzuki é especialista em danças latino-americanas (samba, rumba, etc), Shinya Sugiki é especialista em danças clássicas (valsa, fox-trot, etc) e são uma espécie de rivais. Um dia, Sugiki desafia Suzuki para competirem no “10 Danças”, propondo que cada um ensine ao outro (e às suas parceiras) o tipo de dança em que são especialistas. Durante as aulas apaixonam-se um pelo outro.

O universo das danças de salão serve de cenário a uma história de amor contida e o resultado é agradável à vista e ao coração. Nos papéis principais, Ryoma Takeuchi e Keita Machida não podiam ser mais diferentes, um “caliente” o outro “frio”, mas quando dançam juntos o erotismo e a sensualidade transpiram por todos os seus poros e, claro, acabamos a torcer para que o seu amor se concretize. Tudo isto com muita dança e a “pirosice” associada ao universo das danças de salão. Gostei!

Classificação: 6 (de 1 a 10)








sábado, 28 de fevereiro de 2026

BROKEBACK MOUNTAIN de Ashley Robinson

No dia 09.02.2006 estreou nos nossos cinemas O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. Com uma série de nomeações para os Oscars e um elenco de estrelas, causou furor com a sua história de amor homossexual e até o público heterossexual fez questão de o ir ver. Para ser honesto, quando o vi não me conquistou; achei-o um pouco aborrecido e muito soft; com o passar do tempo melhorou um pouco na minha memória, mas não muito. 

Agora, 20 anos depois, chega aos nossos palcos uma versão teatral a partir do conto de Annie Proulx, o que quer dizer que não é propriamente uma adaptação do filme. O resultado? Uma agradável surpresa!

Ennis (Duarte Melo) e Jack (Rui Pedro Silva) são dois jovens cowboys que se conhecem num Verão em que ambos vão tomar conta de ovelhas em Brokeback Mountain. Sozinhos na montanha, acabam por se apaixonar, mas sabem que o seu amor não pode ser visto pelos outros e ambos acabam por casar com mulheres. Mas a sua paixão, contra tudo e contra todos, continua.

Nas mãos de Daniel Gorjão, esta história de um amor proibido é encenada de forma muito simples e (será que posso dizer isto?) plasticamente fotográfica. A ver se me faço entender. Durante toda a peça, há momentos em que tudo fica estático, como se tratasse de uma fotografia. Esses momentos ajudam a criar dramatismo, movem a acção e parece que fecham os protagonistas sobre si próprios. É como se a sua paixão tivesse de ser contida. Visualmente, é tudo muito cuidado, o nudismo não é gratuito e as cenas de amor são emotivas. A introdução de canções que vão pontuando a história, parece um pouco estranho ao início, mas depois faz todo o sentido.

Carla Galvão empresta a sua bonita voz às canções e marca presença em palco. Joana Ribeiro e João Candeias, que se desdobram em vários papéis, são quase meros figurantes, ofuscados pela paixão de que, juntamente com Galvão, são testemunhas silenciosas. E depois temos Duarte Melo e Rui Pedro Silva que se entregam aos seus personagens com naturalidade, química natural e sem vergonha. A sua paixão é intensa, é verdadeira e os seus medos também o são.

Uma bonita história de amor assombrada pelo medo e que termina em tragédia. Faz-nos pensar porque é que, ainda hoje, o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é condenado por tanta gente. Se conseguirem bilhetes não percam!

Elenco: Carla Galvão, Duarte Melo, Joana Ribeiro, João Candeias, Rui Pedro Silva

Equipa Criativa: Encenação e Direcção Plástica: Daniel Gorjão • Texto: Ashley Robinson, a partir do conto de Annie Proulx • Tradução: Ana Sampaio • Música: Dan Gillespie Sells • Assistente de Encenação: Maria Jorge • Desenho de Luz e Direção Técnica: Sara Garrinhas • Direção Musical: Miguel Lucas Mendes • Vídeo de Cena:  Rafael Bernal • Execução de Cenografia: FPSolutions • Fotografia de Cartaz: Pedro Macedo – Framed Photos • Produção Executiva: Teatro do Vão 

Fotos: Alípio Padilha / Vasco Coelho



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

AVÓ MAGNÉTICA de Pedro Sousa Loureiro

No palco, cinco actores recordam as suas avós. O ponto de inspiração para esta celebração é a avó de Pedro, Margarida Oliveira, uma mulher que nas décadas de 60/70 viveu com um tio homossexual, e que aceitou a sexualidade do seu neto sem julgamentos. 

Para ser sincero, diria que isto na realidade não é uma peça, mas sim uma verdadeira celebração, não só das avós, mas também da vida LGBT+. Os actores enchem o palco, por vezes a plateia, com energia, loucura salutar e ritmo contagiante. Por vezes deu-me vontade de subir ao palco e dançar com eles. Mas não é só de risos que se vive aqui, também tem os seus momentos mais sérios, por vezes comoventes, como por exemplo quando Margarida Bento recorda as suas avós (vieram-me lágrimas aos olhos). Uma coisa é evidente, o amor e a admiração que os actores sentem pelas suas avós.

A imaginativa e colorida encenação, mistura teatro, com cinema, entrevistas, dança, canções e muita maluquice. Somos transportados pelo excelente grupo de actores, que nos fazem crer que tudo aquilo está a ser improvisado naquele momento, para uma festa onde se fala de muitas verdades com humor e carinho. Por vezes é o completo caos... e como eu gosto de ver caos no palco!

Quanto aos cinco actores em palco, estão todos muito bem. Pedro Sousa Loureiro aka Feathering transborda energia por todos os seus poros, Margarida Bento é a sensualidade em pessoa, Violeta Luz é deliciosamente louca, Ana Graça é mais ajuizada, mas com um bom grão de loucura, e Margarida Cardeal é espontânea e cheia de graça.

Numa nota muito pessoal, que até pode não fazer sentido aqui, mas que me apetece partilhar com vocês, a peça fez-me recordar a minha avó materna. 

Ela foi a minha companheira em muitas idas ao cinema, incluindo sessões de terror à meia-noite, bem como em algumas viagens a Londres e Nova Iorque. Nessas cidades, mesmo sem saber uma palavra de inglês, ia ver os musicais comigo e com o meu então namorado; acompanhava-nos também nas longas caminhadas pelas cidades, nós de ténis, ela sempre de salto alto. Lembro-me que não podíamos entrar no wc depois dela, pois se o fizéssemos ficávamos intoxicados com os quilos de laca que ela punha no cabelo. 

Foi ela que, quando eu comecei a namorar, convidou o meu namorado para um café a dois e disse-lhe que estava feliz por eu ter encontrado alguém que gostava de mim. Foi sempre uma mulher de mente aberta, que casou com o homem de quem gostava contra a vontade dos seus pais e que foi mãe aos 16 anos de idade. Não há dúvida, as nossas avós deixaram uma grande marca em todos nós!

Voltando a esta AVÓ MAGNÉTICA, devia ser acarinhada pela comunidade LGBT+ e pelo público em geral. Diria que mais que uma peça, é uma experiência que não vos vai deixar indiferentes. É sempre bom juntarmo-nos a uma festa cheia de alegria, que nos diz que devemos ter orgulho em quem somos, independentemente da nossa sexualidade ou entidade. O importante é sermos nós próprios, sermos felizes!

Elenco: Ana Graça, Margarida Bento, Margarida Cardeal, Pedro Sousa Loureiro aka Feathering, Violeta Luz 

Equipa Criativa: Criação, Produção e Realização: Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Texto: Miguel Stichini e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Música Original e Sonoplastia: Francisco Barahona aka Fresko • Participação em Video: Alex Azevedo, Ana Noronha Andrade, Gilvânio Souza Gigi e Marta Barahona Abreu • Desenho de Luz: Miguel Cruz

Fotos: Alípio Padilha