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domingo, 11 de abril de 2021

ALL WE NEED IS LOVE?

Será que ainda acreditamos no amor? É verdade, a maioria de nós deseja, ou acredita que deseja, ter uma relação estável, onde se sinta confortável e, de certa forma, seguro.

Todos sabemos que não há relações perfeitas; nem príncipes, princesas ou ursos encantados. Mas isso não nos impede de sonhar com o tipo de pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado. Cada um de nós tem um tipo físico pelo qual se sente atraído e isso não faz de nós preconceituosos ou menos inclusivos. Felizmente, não gostamos todos do mesmo e, muitas vezes, acabamos por sentir química com alguém que até pode não corresponder com a imagem que críamos na nossa cabeça.

 

Para mim, o mais importante é que haja empatia e química entre as duas pessoas; sem isso, duvido que alguma relação possa sequer iniciar-se. Para que esta possa ter algum futuro, é necessário que haja respeito mútuo e honestidade; uma mentira pode deitar tudo a perder. Apesar da opinião contrária de alguns, o sexo é muito importante e se a relação não funcionar nesse campo, então o melhor é ficarmo-nos pela amizade. Sim, às vezes, a fronteira entre o amor e a amizade é muito ténue e pode baralhar-nos.

 

Por razões que até acho que fazem sentido, conforme vamos ficando mais velhos (sou um cota de 56 anos), a hipótese de ter uma relação parece tornar-se cada vez mais difícil. Com o avançar da idade vamos criando os nossos hábitos e rotinas, as nossas defesas, há coisas para que já não temos paciência, já não estamos muito dispostos a alterar a nossa forma de ser e estar, fazer concessões já não é tão fácil, somos mais cautelosos e menos crentes. Será que isto faz de nós pessoas egoístas, cínicas e descrentes quanto ao amor? Acho que, acima de tudo, todos temos medo de nos magoarmos e de magoar os outros. Infelizmente, acredito que todos nós, já estivemos nos dois lados desta moeda.

 

Mas se não arriscamos, o que nos resta? Engates inconsequentes nas aplicações ou redes sociais? Sim, podem ser excitantes, mas também podem ser angustiantes. Podem fazer-nos sentir desejados, mas também nos podem fazer sentir vazios. Podem proporcionar-nos um momento de pura diversão, mas também podem revelar-se uma seca. Podem ser uma agradável surpresa, mas também podem ser uma grande decepção. Tudo sentimentos legítimos que muitos de nós já sentiram e que iremos sentir outra vez. Tudo isto faz-nos sentir vivos, o que é muito bom!

 

Encontrar alguém que encaixe na nossa vida não é fácil, mas fechar a porta não nos leva a lado nenhum a não ser à solidão. Claro que esta também tem as suas vantagens e quando se tem bons amigos, aprendemos a viver com ela. Mas, muitas vezes sentimos falta de ter alguém com quem partilhar as pequenas coisas da vida:  dar a mão no escuro do cinema, trocar um olhar cumplice, dormir em conchinha... E depois há o sexo com emoção, carinho, desejo e amor. Sim, temos que continuar a abrir a porta, mas com cuidado, para ninguém se magoar. 

 

O importante é nunca faltarmos ao respeito a nós próprios, nem ao outro, nunca deixarmos de ser quem somos e não exigir que os outros mudem a nosso gosto. Somos todos diferentes e cada um tem a sua forma de amar, de gostar. Não temos que aceitar nada que nos faça sentir desconfortáveis, nem que vá contra a nossa essência. Acima de tudo, perceber que não somos obrigados a aceitar nada, mas sim a respeitar as diferenças que no fundo definem quem nós somos.

 

Não sei se um dia se perde a capacidade de amar, mas quero acreditar que não. Pode não ser como as paixões que vemos nos filmes ou lemos nos romances, mas é um sentimento que nos faz sentir vivos, por vezes tristes, por vezes felizes, mas vivos! That’s life!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A PROPÓSITO DE “IT’S A SIN”

Três jovens homossexuais, Ritchie (Olly Alexander), Roscoe (Omari Douglas) e Colin (Callum Scott Howells), provenientes de meios diferentes, “fogem” para Londres nos anos 80, a fim de puderem viver a sua vida em liberdade. Os seus caminhos cruzam-se e acabam a partilhar o mesmo apartamento, juntamente com Jill (Lydia West) e Ash (Nathaniel Curtis). O que nenhum deles sabia é que muito em breve as suas vidas iriam mudar para sempre devido a uma nova doença chamada SIDA.

A série, da autoria de Russell T. Davies (QUEER AS FOLK), retrata o dia a dia deste grupo de amigos, como lidam com o aparecimento da SIDA e as consequências fatais que a mesma tem nas suas vidas; bem como a forma como as suas famílias reagem perante a aceitação ou não da sua homossexualidade e da doença.

 

Um convincente e, praticamente, desconhecido (exceção para Olly Alexander) grupo de jovens dá vida aos protagonistas principais deste drama. São secundados por algumas caras conhecidas, como os assumidamente gays Stephen Fry e Neil Patrick Harris, mas é Keeley Hawes, como a mãe de Ritchie, quem mais brilha no elenco. 

 

A série, que começa num tom mais ligeiro, vai-se tornando mais dramática e, diria, mesmo negra e forte. O seu criador, Russell T. Davies, não tem problemas em relatar o problema não só da SIDA, mas também da aceitação da homossexualidade, de forma crua e realista, sem “paninhos quentes”. Por isso e não só, esta série devia ser de visão obrigatória para toda a gente. 

 

As gerações mais novas parecem esquecer-se que ainda se morre de VIH e de SIDA. De acordo com um estudo que li em 2019, existiam no mundo 38 milhões de pessoas com VIH e morreram 690.000. Desde que esta doença foi diagnosticada, no mundo inteiro existiram perto de 75 milhões de casos, com cerca de 32 milhões de mortes. Números assustadores, certo?

 

Por cá, no relatório “Infeção VIH e SIDA em Portugal – 2020” da DGS, de Novembro 2020, com dados relativos a 2019, revela que no final de 2018 viviam em Portugal cerca de 41.000 infectados. Em relação a 2019 foram diagnosticados 778 novos casos de infeção por VIH em Portugal, o que equivale a uma taxa de 7,6 casos/100 mil habitantes, não ajustada para o atraso da notificação. Foram ainda notificados 172 novos casos de SIDA e 197 óbitos ocorridos em 2019 em casos de infeção por VIH ou SIDA”. Os dados relativos ao período de 1983-2019, revelam mais de 61.000 casos e mais de 15.000 mortos. O relatório está disponível para consulta no link - http://hdl.handle.net/10400.18/7243

 

Voltando à série, logo no início, quando Ritchie vai de ferry para Londres, o seu pai oferece-lhe uma caixa de preservativos “para evitar que ele engravide alguma moça”. Com um sorriso malicioso nos lábios, Ritchie lança a caixa ao mar, selando assim o seu destino. Sim, por muito que não gostemos de usar o preservativo, este ainda continua a ser o método mais eficaz contra o VIH e outras doenças sexualmente transmissíveis. 

 

Claro que hoje, as coisas já não são tão dramáticas como foram nas décadas de 80 e 90, onde, acredito que todos nós, vimos morrer amigos e conhecidos. Nessa altura não havia PrEP e não se sabia que os pacientes que tinham carga viral indetetável dificilmente transmitiriam o vírus, nem sequer havia nenhum tratamento capaz de baixar dessa forma a carga viral. Mas atenção, estas duas situações apenas podem evitar a transmissão do VIH, mas não de outras doenças.

 

Ninguém é santo e quase todos nós, eu incluído, já estivemos em situações de risco. Por muita informação que tenhamos, a verdade é que às vezes no calor do momento, nos esquecemos disso e arriscamos a nossa sorte. Mais tarde, um pouco assustados, vamos fazer o teste à espera de que o resultado seja negativo, mas a verdade é que, se arriscámos, o mesmo pode ser positivo.


Um apontamento curioso na série, é o facto de um dos personagens mais promíscuos não estar positivo (ele próprio acha que é injusto) e o menos promíscuo estar. A vida é assim!

 

Tudo isto a propósito desta série, que nos fala de um tempo em que se morria com SIDA, nos piores casos com Sarcoma de Kaposi, onde ninguém sabia como lidar com a chamada “doença das bichas”. Morria-se sozinho e isolado do mundo. Direitos LGBT eram uma ilusão e pouca importância era dado a esta doença. Foi preciso morrer gente famosa como o Rock Hudson e o Freddie Mercury, para se começar a falar mais da doença e a procurar uma solução para a mesma. Talvez porque se achou e ainda se acha, que é uma doença que só aflige uma minoria, quase 40 anos depois do seu aparecimento, continua a não a existir uma vacina. Só para comparação, o COVID19 apareceu há pouco mais de um ano e já existem várias vacinas no mercado.

 

Isto já vai longo e longe de mim querer ser chato, mas ainda tenho algo mais para dizer. Ao contrário de outro tipo de doenças, o VIH e SIDA trazem consigo o síndroma da vergonha. Para o teres contraído é porque fizeste sexo, provavelmente com gays, ou então és drogado; felizmente ou infelizmente, a doença não é exclusiva destes grupos, mas ainda é assim que é vista pela sociedade em que vivemos.

 

Mais grave ainda, mesmo no meio LGBT, existe um forte estigma em relação aos portadores do VIH. Essas pessoas sentem-se postas de parte pela maioria e acabam por se isolar ou então de omitir que são sero-positivos, a fim de poderem ter uma vida sexual satisfatória. É pena que assim seja, pois seria mais seguro para todos se pudéssemos ser abertos em relação às doenças sexualmente transmissíveis (e porrra! Há tantas!) e tomarmos as devidas precauções de forma a que estas não se propaguem e o preservativo continua a ser um fiel aliado.

 

Depende de todos nós acabar com o estigma deste tipo de doenças e aprender a respeitar os portadores das mesmas, não os pondo de lado, mas sim aceitando-os e dar-lhes o apoio que necessitam... e o sexo também! Mas façam-no com cuidado! Se não nos apoiarmos uns aos outros, ninguém o fará. 


Agora deixo-vos em paz e vão lá ver a série ou amar alguém!







domingo, 24 de janeiro de 2021

O TEU NOME GRAVADO NO MEU (Your Name Engraved Herein) de Kuang-Hui Liu

A História: Taiwan 1987. A lei marcial termina no país. Na universidade, Jia-han e Birdy conhecem-se e apaixonam-se um pelo outro, numa sociedade homofóbica. Enquanto Jia-han está disposto a assumir o seu amor, Birdy prefere envolver-se com uma rapariga.

O Filme: Com excepção do Queer Lisboa, o cinema LGBT+ não tem grande expressão nos nossos circuitos comerciais (cinemas, streaming e vídeo-clubes) e sempre que aparece algum filme, independentemente da sua qualidade, este desperta o interesse da comunidade Queer.

 

O ritmo lento e pouco emotivo da realização de Kuang-Hui Liu, dificulta a visão do filme (que se poderá tornar ensonada) e irá afastar muita gente. A história é, no entanto, interessante e mostra que os dilemas que os gays vivem são, praticamente, iguais em todas as sociedades. Entre o drama social e o drama romântico, o filme tem os seus melhores momentos na tensão sexual que cria entre os dois jovens e a forma como estes reagem à mesma. Esta tensão culmina na eficaz, crua e emotiva cena do duche. Outro bom momento é a chamada telefónica e gostei da forma como o filme termina.

 

Nos papéis principais, Edward Chen e Jing-Hua Tseng vão bem, mas nenhum deles tem grande carisma sexual, diria mesmo que são um pouco assexuados; mas curiosamente, funcionam bem enquanto par.

 

Classificação: 5 (de 1 a 10)











segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

THE PROM de Ryan Murphy

A História: Um grupo de actores da Broadway, a quem a carreira não corre muito bem, decidem ir até a uma pequena cidade de Indiana, para darem apoio a uma jovem estudante, Emma, que levar a sua namorada ao “prom”. A ideia é que esse gesto lhes traga boa publicidade, uma vez lá percebem que as coisas não vão ser assim tão fáceis. Entretanto, Emma tem que enfrentar alguns problemas.

O Filme: Infelizmente, não vi o musical da Broadway, mas tenho ouvido com alguma frequência a agradável gravação do elenco original desde que esta foi editada. Assim, estava ansioso por ver esta adaptação cinematográfica e acho que o realizador Ryan Murphy se saiu muito bem.

 

Estamos perante uma agradável comédia musical com um grande coração e muita cor! Nas mãos de Murphy, a acção flui naturalmente e os números musicais nunca parecem forçados. Ele nutre carinho pelos seus personagens e dá a todos um momento para poderem brilhar. Murphy também aborda alguns temas LGBT+ sem parecer moralista, fazendo-o com humor e sensibilidade. Não se admirem se derramarem algumas lágrimas, pois a história de Emma é universal, emocional e tem a capacidade de tocar corações sensíveis.

 

O elenco é muito bom! Meryl Streep não podia ser melhor como a Broadway Diva, com um ego do tamanho do mundo e, como sempre, rouba todas as cenas em que aparece. Como os seus colegas de profissão, James Corden é um doce, Nicole Kidman é uma frágil e sensual corista e Andrew Rannells é um irritante, mas divertido, ex-estudante da famosa Juilliard. Como o jovem casal lésbico, tanto Jo Ellen Pellman e Ariana DeBose são boas, mas às vezes Pellman sorri demasiado e gostava que DeBose cantasse mais. Uma última palavra para Keegan-Michael Key, que dá coração ao director da escola, que é apaixonado por musicais, e para Kerry Washington como a intolerante mãe de Alyssa.

 

Como já disse, gosto da partitura deste musical da autoria de Matthew Sklar & Chad Beguelin, o qual tem várias boas canções. Meryl Streep aproveita ao máximo os seus dois grandes números “It’s Not About Me” e “The Lady’s Improving” , Nicole Kidman dá-nos o seu  “Zazz” em estilo sensual, James Corden desabrocha com “Barry is Going to Prom”, Andrew Rannels diverte-se com “Love Thy Neighbor” e Keegan-Michael Key dá-nos a palavra final em canções de apaixonados por teatro “We Look to You”. Jo Ellen Pellman é um doce com as suas baladas “You Happened”, “Dance with You” e “Unruly Heart” (que se pode vir a tornar um hino LGBT). Para terminar, temos dois números contagiosos: “Tonight Belongs to You” e “It’s Time to Dance”.


Não posso afirmar que este é um grande filme musical, mas faz-nos querer dançar e coloca um sorriso nos nossos corações! É pura diversão e o mundo necessita de mais musicais como este!

 

Classificação: 7 (de 1 a 10)






segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MISS de Ruben Alves

A História: Desde miúdo que Alex sonha em ser um dia Miss França. Ficando órfão muito jovem, a vida não lhe tem sido fácil, mas ele não desistiu do seu sonho. Com a ajuda de um grupo de amigos, ele enche-se de coragem e concorre a Miss, conseguindo ser apurado para a grande final.

O Filme: Em 2013, o realizador e argumentista, Ruben Alves surpreendeu todos com o seu A GAIOLA DOURADA, um grande sucesso de público em França e por cá também. Tivemos que esperar sete anos pela sua nova longa-metragem, mas valeu a pena!

 

Com humor, sensibilidade e habilidade ele pega em temas tão diversos como sexualidade, emigração, prostituição, família, homofobia e dá-nos uma comédia deliciosa, onde as gargalhadas são muitas, mas onde há também lugar a lágrimas e a drama. Os diálogos estão muito bem escritos e são muito engraçados, perfeitos para a colorida galeria de personagens que vivem esta história. Sente-se bem o carinho e o respeito que Alves tem por todos eles. É um filme que nos fala da importância do respeito e da tolerância pela diferença dos outros, mas sem discursos moralistas ou qualquer tipo de pretensiosismo. 

 

Alves é, como já tinha demonstrado no seu filme anterior, um excelente director de actores, não deixando nenhum ficar mal, independentemente da sua importância para a história. O jovem Alexandre Wetter é uma revelação como o frágil, mas corajoso Alex; é um prazer acompanhar a possível realização do seu sonho. Pascale Arbillot vai muito bem como a dura mas empática Amanda, a responsável pelo concurso. Mas o filme é praticamente “roubado” por Isabelle Nanty como a bruta, com coração de ouro, Yolande, a senhoria de Alex, e, principalmente por Thibault de Montalembert como a louca e divertida Lola, um travesti meio decadente, mas que nunca perde a sua dignidade.

 

Será uma pena que este filme se perca no meio do COVID, pois merecer ter tanto ou mais sucesso que A GAIOLA DOURADA. Especialmente atraente à comunidade queer, o filme é muito mais que isso, pois conta-nos uma história universal sobre o poder dos sonhos, da força da amizade e a importância da família, seja ela qual for. Alves podia ter caído na lamechice, mas evita-a sem problemas e dá-nos um final perfeito. Se as lágrimas vos vierem aos olhos, não tenham vergonha, é sinal de que estão vivos e capazes de sentir a emoção dos outros. Só espero que o próximo filme de Ruben Alves esteja para breve. A não perder!

 

Classificação: 8 (de 1 a 10)







domingo, 8 de novembro de 2020

LA DEA FORTUNA de Ferzan Ozpetek

A História: Arturo e Alessandro são um casal gay que está junto faz já quinze anos e cuja relação está a passar por um período complicado. Annamaria é a melhor amiga de Alessandro e é também uma mãe solteira a lidar com um problema grave de saúde, o que a leva a pedir a eles que tomem contem dos seus filhos por uns dias.

 

O Filme: Há dez anos atrás estreou por cá uma engraçada comédia gay italiana com o título UMA FAMÍLIA MODERNA (Mine Vaganti). Agora, no âmbito da Festa do Cinema Italiano, tive a oportunidade de ver o último filme do mesmo realizador, Ferzan Ozpetek.


O registo escolhido é a comédia dramática, com um ligeiro toque de terror (mais não conto), que nos faz rir com o seu bom sentido de humor, que por vezes nos comove com os seus personagens e que nos conta uma história interessante, que consegue evitar a lamechice a que se prestava. É talvez um pouco ligeira na forma como toca alguns assuntos sérios, como o adultério e doenças graves, mas são tratados com sensibilidade e humor.


No elenco, dois gajos bons, Stefano Accorsi e Edoardo Leo, dão vida ao casal gay e fazem-no muito bem; a química entre os dois é verdadeira, bem como a empatia entre eles e as duas crianças, Sara Ciocca (com uns olhos fabulosos) e Edoardo Brandi (um puto doce). Como Annamaria, a bonita Jasmine Trinca dá um brilho especial à sua personagem. Este excelente quinteto de actores, está bem rodeado por um notável grupo de secundários.


Pode não ser um grande filme, mas gostei muito e soube-me bem “viver” a vida dos personagens por cerca de duas horas bem passadas.

 

Classificação: 7 (de 1 a 10)






sábado, 31 de outubro de 2020

A MONTRA DO TALHO: GRINDR E OS OUTROS

Aviso: este meu texto pode ferir suscetibilidades e poderá não ser politicamente incorrecto.

Quem, como eu, saiu de uma longa relação e de repente se vê confrontado com as novas tecnologias de engate, a coisa pode ser um pouco estranha. No meu tempo os engates eram feitos nos bares, cinemas, rua, centro comerciais... era tudo ao vivo e a cores.


Se nesses tempos eu já me senti, quando fui ao Bric, um simples pedaço de carne cobiçado por uns, desprezado por outros. Hoje essa ligação ao talho é ainda mais forte e a app Grindr não podia ter escolhido um nome mais apropriado. As outras podem ter outros nomes, mas o resultado final é o mesmo. São todos montras e nós pedaços de carne à espera da melhor oferta ou, simplesmente, de uma oferta. A sensação de rejeição é palpável e a ausência de sentimentos assustadora. Não há mal nenhum em fazer sexo por sexo, mas parece que é apenas isso que as pessoas procuram.

 

Com 56 anos já me podem chamar de cota, ou de daddy, o que é mais simpático. Com esta idade talvez já esteja velho para esta coisa das apps. Provavelmnete, já todos estivemos, estamos ou vamos estrar no Grindr, Scruff e outros tais. Confesso que saí dessas apps ao fim de algumas semanas; aquilo causava-me angústia. Há poucas semanas instalei o Tinder, que é mais levezinho, mas também não desenvolve. 

 

Quando entramos nessas aplicações, aparece-nos a montra do produto que está disponível, ou supostamente disponível, e é só escolher. Pode-se dizer que há homens para todos os gostos e idades, mas por muito inclusivos que nós sejamos, a verdade é que a imagem exterior que nos desperta a atenção ou a simples tusa. Se gostamos de gordos, os magros passam-nos ao lado; se preferimos machões super masculinos, os afeminados estão fora da nossa esfera; se temos mais apetite por carne fresca, os cotas ou daddys não nos dizem nada; se gostamos de negros, os brancos passam para segundo plano. Quanto aos feios e bonitos é tudo muito subjectivo; ele até há feios bonitos e bonitos feios. Mas de uma forma ou outra, somos todos pedaços de carne em exposição e, salvo raras excepções, somos tratados dessa forma e acabamos por fazer o mesmo.

 

Gosto de acreditar que mesmo neste “mercado carnal” é possível fazer-se amizades e conhecer pessoas interessantes. Mas a maior parte das vezes, um simples café está fora de questão. Recebemos fotos do rabo e pila, mas revelar a cara é mais complicado e, mesmo um encontro para sexo casual, não é fácil. Julgo que a preferência é a punheta virtual, daí a troca infindável de fotos e vídeos. Nestes tempos de COVID compreendo, mas já antes era assim.

 

Não sei o que futuro nos reserva no que diz respeito a formas de como vamos interagir uns com os outros, mas tenho esperança de que estas se humanizem. Todos precisamos do contacto humano, de um simples abraço, de uma festa na cabeça, de um simples passeio a dois, companhia no cinema, um jantar sem segundas intenções e, claro, que todos nós também gostamos e precisamos de sexo, mas este não tem que ser sempre impessoal, um simples, desculpem a expressão, despejar de colhões.




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

THE BOYS IN THE BAND de Joe Mantello

A História: Nova Iorque 1968. Um grupo de amigos gays reúne-se para festejar o aniversário de um deles. A visita inesperada de um ex-colega homofóbico do dono da casa, leva a um desenrolar de acontecimentos em que a bebida ajuda a soltar línguas e sentimentos. 

O Filme: A peça, da autoria de Matt Crowley, que deu origem a este filme estreou Off-Broadway em 1968 e, em 2018, chegou aos palcos da Broadway numa nova produção que ganhou o Tony para Melhor Revival Dramática. A peça foi adaptada ao cinema em 1970 e esse filme estreou em Portugal em 1975.


Foi a recente produção da Broadway que chamou a atenção do Ryan Murphy, que decidiu produzir para a Netflix uma nova adaptação cinematográfica, usando o elenco da Broadway e o mesmo director.


Duas particularidades em relação ao talentoso elenco. Ao contrário do que acontecia no filme original, neste temos várias caras conhecidas a dar vida aos personagens, entre eles Jim Parsons, Zachary Quinto e Matt Bomer. A segunda é o facto de todos os actores serem, sem excepção, homossexuais assumidos, algo que nos anos 60/70 poderia significar o fim das suas carreiras.


Não é um filme simpático para nós homossexuais, pois não somos mostrados de forma muito positiva. É verdade que a acção decorre em 1968, antes da revolução de Stonewall, tempos muito mais complicados para os gays. Hoje em dia as coisas são, ou pelo menos parecem diferentes, temos mais visibilidade, direitos que na altura nem se sonhava com e, posso dizer, somos mais tolerados, em vez de aceites, pela sociedade em geral.


Curiosamente, um cartaz da estreia do filme original em Portugal (que aqui reproduzo) descreve na perfeição os estereótipos que ainda hoje fazem, de certa forma, parte da nossa comunidade: o gay que não o quer ser, a cabra, a bichona, o promíscuo, o amigo ideal, o prostituto e um indeciso homofóbico. Estas personagens dificilmente conseguem criar empatia com a audiência, talvez porque não nos queremos ver a nós nem aos nossos amigos neles, talvez porque gostávamos que hoje em dia as coisas fossem diferentes. É engraçado constatar que um dos personagens mais simpáticos é o jovem prostituto.

O filme sofre por ser demasiado teatral, tornando-se por vezes um pouco chato. Talvez a ter como realizador o director da peça da Broadway não tenha sido a melhor ideia, se bem que ele fez um excelente trabalho com a adaptação cinematográfica de outra peça gay, LOVE! VALOUR! COMPASSION! O filme vale sobretudo pelo duelo dos actores e na direcção destes Mantello é intocável. Estão todos excelentes!


Perto do final do filme, o personagem principal diz esta frase: “Se pudéssemos aprender a não nos odiarmos assim tanto”. Infelizmente, não me parece que isso tenha mudado muito. Sou o administrador de um grupo queer no Facebook e posso afirmar que, pelo tipo de alguns comentários que por lá fazem, continuamos a não saber respeitarmo-nos, empatia é algo que exigimos aos outros, mas não a nós próprios. Este ressabiamento que nos parece natural, causa mágoas, fere, por vezes mortalmente, pessoas e ninguém ganha nada com isso. Enquanto minoria que somos, ainda temos muito que aprender. Sim, lutamos por ter direitos iguais aos heterossexuais, mas entre nós conseguimos ser piores que eles e isso tem que mudar. Começa comigo e começa com cada um de vocês.


Vamos evitar que outra frase do filme seja verdadeira: “Mostra-me um homossexual feliz e eu mostro-te um cadáver gay”. Está na altura de aprendermos a não nos odiarmos tanto!

 

Classificação: 6 (de 1 a 10)