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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

AVÓ MAGNÉTICA de Pedro Sousa Loureiro

No palco, cinco actores recordam as suas avós. O ponto de inspiração para esta celebração é a avó de Pedro, Margarida Oliveira, uma mulher que nas décadas de 60/70 viveu com um tio homossexual, e que aceitou a sexualidade do seu neto sem julgamentos. 

Para ser sincero, diria que isto na realidade não é uma peça, mas sim uma verdadeira celebração, não só das avós, mas também da vida LGBT+. Os actores enchem o palco, por vezes a plateia, com energia, loucura salutar e ritmo contagiante. Por vezes deu-me vontade de subir ao palco e dançar com eles. Mas não é só de risos que se vive aqui, também tem os seus momentos mais sérios, por vezes comoventes, como por exemplo quando Margarida Bento recorda as suas avós (vieram-me lágrimas aos olhos). Uma coisa é evidente, o amor e a admiração que os actores sentem pelas suas avós.

A imaginativa e colorida encenação, mistura teatro, com cinema, entrevistas, dança, canções e muita maluquice. Somos transportados pelo excelente grupo de actores, que nos fazem crer que tudo aquilo está a ser improvisado naquele momento, para uma festa onde se fala de muitas verdades com humor e carinho. Por vezes é o completo caos... e como eu gosto de ver caos no palco!

Quanto aos cinco actores em palco, estão todos muito bem. Pedro Sousa Loureiro aka Feathering transborda energia por todos os seus poros, Margarida Bento é a sensualidade em pessoa, Violeta Luz é deliciosamente louca, Ana Graça é mais ajuizada, mas com um bom grão de loucura, e Margarida Cardeal é espontânea e cheia de graça.

Numa nota muito pessoal, que até pode não fazer sentido aqui, mas que me apetece partilhar com vocês, a peça fez-me recordar a minha avó materna. 

Ela foi a minha companheira em muitas idas ao cinema, incluindo sessões de terror à meia-noite, bem como em algumas viagens a Londres e Nova Iorque. Nessas cidades, mesmo sem saber uma palavra de inglês, ia ver os musicais comigo e com o meu então namorado; acompanhava-nos também nas longas caminhadas pelas cidades, nós de ténis, ela sempre de salto alto. Lembro-me que não podíamos entrar no wc depois dela, pois se o fizéssemos ficávamos intoxicados com os quilos de laca que ela punha no cabelo. 

Foi ela que, quando eu comecei a namorar, convidou o meu namorado para um café a dois e disse-lhe que estava feliz por eu ter encontrado alguém que gostava de mim. Foi sempre uma mulher de mente aberta, que casou com o homem de quem gostava contra a vontade dos seus pais e que foi mãe aos 16 anos de idade. Não há dúvida, as nossas avós deixaram uma grande marca em todos nós!

Voltando a esta AVÓ MAGNÉTICA, devia ser acarinhada pela comunidade LGBT+ e pelo público em geral. Diria que mais que uma peça, é uma experiência que não vos vai deixar indiferentes. É sempre bom juntarmo-nos a uma festa cheia de alegria, que nos diz que devemos ter orgulho em quem somos, independentemente da nossa sexualidade ou entidade. O importante é sermos nós próprios, sermos felizes!

Elenco: Ana Graça, Margarida Bento, Margarida Cardeal, Pedro Sousa Loureiro aka Feathering, Violeta Luz 

Equipa Criativa: Criação, Produção e Realização: Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Texto: Miguel Stichini e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Música Original e Sonoplastia: Francisco Barahona aka Fresko • Participação em Video: Alex Azevedo, Ana Noronha Andrade, Gilvânio Souza Gigi e Marta Barahona Abreu • Desenho de Luz: Miguel Cruz

Fotos: Alípio Padilha


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O MEU AMIGO FREDDY KRUEGER de André Murraças

André Murraças leva-nos numa viagem nostálgica aos anos 90, uma altura em que a Internet era algo ainda distante e ainda se alugavam filmes nos clubes de vídeo. Nessa altura ele, um jovem homossexual, era alvo de bullying, homofobia e gordofobia. Quando descobriu o cinema de terror, identificou-se com os seus monstros que, tal como ele, eram colocados à margem pela sociedade e tornavam-se violentos como forma de sobreviverem. Entre esses monstros, o seu preferido era Freddy Krueger, com quem criou uma bela amizade.

Num cenário simples, repleto de referências visuais dos anos 80/90, André fala-nos do que o ligava ao cinema de terror, de como se relacionava com os seus colegas, da sua necessidade de fazer parte de um grupo de amigos, de como descobriu que o humor o podia ajudar na sua vida social, a descoberta dos musicais e do mundo do teatro. Tudo isto é feito com honestidade e humor.

Excertos de diversos filmes vão pontuando a noite, com especial relevo para os filmes da série PESADELO EM ELM STREET. Receio que uma importante referência cinéfila passe despercebida ao público em geral e talvez André devesse chamar a atenção para a mesma; refiro-me à cena do filme A CORDA de Alfred Hithcock, onde dois homens estrangulam outro, esses dois homens são um suposto casal gay e um dos actores, Farley Granger, também era gay na vida real. Também temos alguns momentos musicais, que foi onde eu achei que André se entrega mais. 

Tenho que confessar que me revi em muitas das coisas porque André passou; no meu caso nos anos 70/80. Talvez por isso, ia à espera de que o espectáculo tivesse uma forte componente emocional, mas não a senti e também achei que André falha (talvez por opção) em criar empatia com nós o público, mas consegue entreter-nos durante 90 minutos e nem dei pelo tempo passar.

Infelizmente, apesar de tudo o que já se conquistou em termos de direitos LGBT+, fazer uma peça destas, em que um actor expõe a sua sexualidade sem vergonha, ainda é um acto de coragem. Recentemente assisti a isso em ODE AOS MEUS HOMENS com Rafael Diaz Costa e agora foi a vez de André Murraças. Parabéns pela coragem!

Elenco: André Murraças

Equipa Criativa: Encenação, Texto, Cenografia, Genéricos e Grafismos Video: André Murraças • Video: Três Vinténs • Fotografia: André Murraças, Matilde Fernandes e Nicole Sánchez • Apoio Cenográfico: Cândida Maria • Produção Executiva: Nicole Sánchez • Produção: Canário Bonacheirão

Fotos: Leonardo Negrão 





quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ODE AOS MEUS HOMENS ou O MAIOR SILÊNCIO DO MUNDO de Rafael Diaz Costa

Num palco quase vazio, um actor entrega-se de alma e coração ao seu personagem, despido de moralismos, preconceitos, medos. A sua interpretação transborda de todos os seus poros, num tour de force que não deixa ninguém indiferente. 

O actor em questão é Rafael Diaz Costa, um dos jovens talentos que tive o prazer de descobrir no Teatro Rápido, onde nos deu um inesquecível PROFESSOR ROBERTO. Tal como nessa curta peça, o texto também é da sua autoria. A história, semiautobiográfica, fala-nos de um homem gay, das suas paixões, das suas perdas, dos seus sonhos. Duvido que haja algum homem gay que não se reveja em uma ou mais situações, o que faz deste retrato íntimo uma experiência emocional muito próxima de nós. 

Sempre disse que “menos é mais”, ou como com pouco se faz muito, e essa é a abordagem inspirada da encenadora Íris Macedo. Com meia-dúzia de objectos, uma eficaz iluminação de Filipe Pacheco, usando a sua e a nossa imaginação, ela consegue transformar o palco numa discoteca, num quarto e outros locais. Consegue evitar as lamechices, bem como a militância LGBT+, a que a história se podia prestar, e dá-nos um retrato honesto e sensível de um homem que só pretende amar e ser amado... não é que todos queremos?

Esta produção do Teatro Bravo merece a vossa atenção e aplauso. Por isso, façam o favor a vós próprios de irem ver esta ODE AOS MEUS HOMENS, onde Rafael Diaz Costa vai conquistar o vosso coração. Não se vão arrepender!

Elenco: Rafael Diaz Costa

Equipa Criativa: Encenação: Íris Macedo • Texto: Rafael Diaz Costa • Direção de Corpo: Margaria Borges • Desenho de Luz e Som: Filipe Pacheco • Voz Off: Gonçalo Lino Cabral • Produção: Teatro Bravo • Apoio à Produção: Teatro Papa-Léguas

Fotos: Filipe Ferreira





terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

UM PEQUENO INCIDENTE de José Pedro Peter

Numa sala de espera de um centro de saúde, dois homens aguardam o resultado do teste rápido ao VIH. Um deles muito nervoso, quase em pânico, o outro calmo e racional. Enquanto esperam, acabam por travar conhecimento um com o outro. Quando sabem os resultados, um deles desaparece sem rasto, mas o futuro tem planos para eles. 

Uma premissa muito simples, acaba por se tornar numa envolvente experiência emocional. De certa forma, quase de forma imersiva, nós estamos naquela sala de espera com os protagonistas e somos testemunhas de uma belíssima história de amor, ao mesmo tempo que somos confrontados com algumas duras realidades. Um dos personagens diz a certa altura que era preferível que o teste desse positivo, pois assim acabava-se a ansiedade e medo de cada vez que ia fazer testes... confesso que é algo que já me passou pela cabeça.

A encenação de Marco António Pâmio é genial na sua quase inexistência, dando palco aos seus protagonistas e criando uma grande envolvência entre eles e nós espectadores. É tudo tão natural, tão real, que até parece que nada foi encenado. O texto da autoria de um dos actores, José Pedro Peter, é realista, tem humor, evita lamechices e deixa-nos de coração cheio.

Quanto aos actores, Carlos Marinho e José Pedro Peter, são tão naturais na sua representação, que praticamente nos esquecemos que são actores. A cumplicidade e química entre ambos é transcendental, transformando esta história num verdadeiro acto de amor que nos deixa (ou a mim deixou) com lágrimas nos olhos.

Como dizem na peça e não podia concordar mais, mais importante do que um “eu amo-te” ou “gosto de ti” é um simples “Estou Contigo”, que tanto serve para namorados como para amigos. É bom saber que, independentemente de tudo, alguém está connosco, ao nosso lado. Que não estamos sozinhos.

Os meus sinceros parabéns a todos os envolvidos nesta peça e só lamento que tenha tido tão poucas exibições. Espero que voltem!

Elenco: Carlos Marinho, José Pedro Peter

Equipa Criativa: Encenação: Marco António Pâmio • Texto: José Pedro Peter • Direcção de Produção: Fabio Camara • Figurino: Fabio Namatame • Iluminador: Fran Barros  • Arte Gráfica: Cristian Schumann • Produção: Lugibi Produções – PedroPeterProd.

Fotos: Leekyung Kim

sábado, 4 de outubro de 2025

PLAINCLOTHES de Carmen Emmi

Lucas é um jovem polícia destacado para, à paisana, atrair gays no wc de um centro comercial e depois prender quem caia na armadilha. Um dia cruza-se com Andrew, por quem sente uma grande atracção e não é capaz de o denunciar; este deixa-lhe o seu contacto e em breve os dois voltam a encontrar-se, iniciando algo que vai mudar a vida de ambos para sempre.

Ao escolher um formato de imagem quadrado, o realizador Carmen Emmi imprime ao filme uma atmosfera claustrofóbica que serve na perfeição o estado emocional do seu jovem protagonista, preso numa vida que não o satisfaz tanto a nível pessoal como profissional. Depois, o uso de imagens sobrepostas, quase de arquivo, que ao princípio pode parecer um pouco pretensioso, tem ligação directa com o estado psicológico do polícia. 

O argumento, também de Emmi, está bem construído, sem cair em clichés ou lamechices, sempre pontuado com algum humor e carregado de tensão; com personagens bem construídas e com uma ou duas surpresas na manga.

O ponto forte do filme é, sem sombra de dúvida, a química sexual entre Tom Blyth (Lucas) e Russell Tovey (Andrew), que aquece qualquer um. Ambos os actores estão óptimos nos seus papéis e não podiam ser mais credíveis na sua paixão. No papel da mãe de Lucas, Maria Dizzia vai muito bem e a sua última expressão diz tudo e, quase só por si, justifica a visão do filme. Mas não vão querer perder a paixão quente entre Blyth e Tovey.

Tudo indica que o filme em breve estará disponível na plataforma de streaming Filmin.

Classificação: 7 (de 1 a 10)





quarta-feira, 10 de setembro de 2025

QUEER LISBOA 2025: OS CARTAZES

A 29ª edição do QUEER LISBOA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA QUEER, irá decorrer de 19 a 27 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa em Lisboa.

Aqui vos deixo uma galeria com os cartazes de praticamente todas as longas-metragens (ficção e documentários) que vão ser exibidas no decorrer do Festival.

Para mais informações visitem o site do QUEER LISBOA









domingo, 8 de setembro de 2024

QUEER LISBOA 2024: OS CARTAZES

A 28ª edição do QUEER LISBOA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA QUEER, irá decorrer de 20 a 28 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa em Lisboa.

Aqui vos deixo uma galeria com os cartazes de praticamente todas as longas-metragens (ficção e documentários) que vão ser exibidas no decorrer do Festival, bem como de muitas curtas-metragens. 

Aqui fica o link para o site do Festival: queerlisboa.pt















sábado, 25 de maio de 2024

ESTRANHO AMOR (Stranizza D’Amuri) de Giuseppe Fiorello

Sicília 1982. Algures numa pequena localidade, dois adolescentes apaixonam-se um pelo outro, enfrentando a homofobia e preconceito de todos, incluindo as suas famílias, tentando viver um amor cujo futuro parece estar condenado.

Talvez seja um pouco longo, mas somos facilmente conquistados pela genuína inocência e ingenuidade dos jovens Samuele Segreto e Gabriele Pizzurro como Gianni e Nino. Torcemos pelo seu amor, perante uma sociedade que não só não os aceita, como age com violência perante a situação, como se tivessem medo deste “estranho” amor. Supostamente inspirado num caso real, é um aviso que a homofobia é real e, infelizmente, continua por aí, com tendência para piorar. Vamos ter esperança que histórias como esta possam ter finais felizes.

Classificação: 6 (de 1 a 10)