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quarta-feira, 11 de março de 2026

YOUNG HEARTS - O PRIMEIRO AMOR (YOUNG HEARTS) de Anthony Schatteman















Elias, um puto de 12/13 anos, começa a ter sentimentos pelo seu novo vizinho Alexander, um rapaz da sua idade, e acaba por se apaixonar por ele, não sabendo muito bem como lidar com isso.

A inocência e o amor andam de mãos dadas neste delicioso drama romântico. A realização de Anthony Schatteman é cuidada e revela um enorme amor pelos seus personagens. No papel de Elias, Lou Goossens é fantástico como o puto que não sabe o que fazer com os seus sentimentos, entre a vergonha, o amor e o receio do que os outros possam pensar. Como Alexandre, Marius DeSaeger é um puto com a sua sexualidade bem resolvida e sem medos. 

A história desenrola-se com sensibilidade, apontamentos de humor e, lá mais para o final, algumas lágrimas emocionais. Sabe bem ver um filme destes que fala sem medos de ser-se gay, e que o faz com grande respeito e carinho. Saí do cinema com o coração cheio. A não perder!

Classificação: 8 (de 1 a 10)


























terça-feira, 10 de março de 2026

PILLION de Harry Lighton

Colin é um homem gay, tímido e um pouco inocente, que um dia conhece Ray, um motoqueiro giraço que se interessa por ele e o torna o seu “escravo”. Nasce assim uma relação de poder e submissão entre os dois.

Não, “pillion” não é uma prática sexual, é o nome dado ao lugar de trás (ou do pendura) das motos; lugar que no filme é ocupado por Colin. Mas não se preocupem, há diversas práticas sexuais e bem explícitas neste drama gay, onde um homem se deixa subjugar por outro, num jogo sado-maso que poderá deixar algumas pessoas desconfortáveis. Diria que é um filme forte, corajoso, que julgo não deixará ninguém indiferente. 

Nos papéis principais, Harry Melling (que entrou nos Harry Potters) é uma revelação como Colin e Alexander Skarsgård é um deus sexual capaz de despertar o guloso que há em nós. 

Decididamente, não é um filme para mentes fechadas.

Classificação: 6 (de 1 a 10)










10 DANÇAS (TEN DANCE) de Keishi Otomo











Shinya Suzuki é especialista em danças latino-americanas (samba, rumba, etc), Shinya Sugiki é especialista em danças clássicas (valsa, fox-trot, etc) e são uma espécie de rivais. Um dia, Sugiki desafia Suzuki para competirem no “10 Danças”, propondo que cada um ensine ao outro (e às suas parceiras) o tipo de dança em que são especialistas. Durante as aulas apaixonam-se um pelo outro.

O universo das danças de salão serve de cenário a uma história de amor contida e o resultado é agradável à vista e ao coração. Nos papéis principais, Ryoma Takeuchi e Keita Machida não podiam ser mais diferentes, um “caliente” o outro “frio”, mas quando dançam juntos o erotismo e a sensualidade transpiram por todos os seus poros e, claro, acabamos a torcer para que o seu amor se concretize. Tudo isto com muita dança e a “pirosice” associada ao universo das danças de salão. Gostei!

Classificação: 6 (de 1 a 10)








sábado, 28 de fevereiro de 2026

BROKEBACK MOUNTAIN de Ashley Robinson

No dia 09.02.2006 estreou nos nossos cinemas O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. Com uma série de nomeações para os Oscars e um elenco de estrelas, causou furor com a sua história de amor homossexual e até o público heterossexual fez questão de o ir ver. Para ser honesto, quando o vi não me conquistou; achei-o um pouco aborrecido e muito soft; com o passar do tempo melhorou um pouco na minha memória, mas não muito. 

Agora, 20 anos depois, chega aos nossos palcos uma versão teatral a partir do conto de Annie Proulx, o que quer dizer que não é propriamente uma adaptação do filme. O resultado? Uma agradável surpresa!

Ennis (Duarte Melo) e Jack (Rui Pedro Silva) são dois jovens cowboys que se conhecem num Verão em que ambos vão tomar conta de ovelhas em Brokeback Mountain. Sozinhos na montanha, acabam por se apaixonar, mas sabem que o seu amor não pode ser visto pelos outros e ambos acabam por casar com mulheres. Mas a sua paixão, contra tudo e contra todos, continua.

Nas mãos de Daniel Gorjão, esta história de um amor proibido é encenada de forma muito simples e (será que posso dizer isto?) plasticamente fotográfica. A ver se me faço entender. Durante toda a peça, há momentos em que tudo fica estático, como se tratasse de uma fotografia. Esses momentos ajudam a criar dramatismo, movem a acção e parece que fecham os protagonistas sobre si próprios. É como se a sua paixão tivesse de ser contida. Visualmente, é tudo muito cuidado, o nudismo não é gratuito e as cenas de amor são emotivas. A introdução de canções que vão pontuando a história, parece um pouco estranho ao início, mas depois faz todo o sentido.

Carla Galvão empresta a sua bonita voz às canções e marca presença em palco. Joana Ribeiro e João Candeias, que se desdobram em vários papéis, são quase meros figurantes, ofuscados pela paixão de que, juntamente com Galvão, são testemunhas silenciosas. E depois temos Duarte Melo e Rui Pedro Silva que se entregam aos seus personagens com naturalidade, química natural e sem vergonha. A sua paixão é intensa, é verdadeira e os seus medos também o são.

Uma bonita história de amor assombrada pelo medo e que termina em tragédia. Faz-nos pensar porque é que, ainda hoje, o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é condenado por tanta gente. Se conseguirem bilhetes não percam!

Elenco: Carla Galvão, Duarte Melo, Joana Ribeiro, João Candeias, Rui Pedro Silva

Equipa Criativa: Encenação e Direcção Plástica: Daniel Gorjão • Texto: Ashley Robinson, a partir do conto de Annie Proulx • Tradução: Ana Sampaio • Música: Dan Gillespie Sells • Assistente de Encenação: Maria Jorge • Desenho de Luz e Direção Técnica: Sara Garrinhas • Direção Musical: Miguel Lucas Mendes • Vídeo de Cena:  Rafael Bernal • Execução de Cenografia: FPSolutions • Fotografia de Cartaz: Pedro Macedo – Framed Photos • Produção Executiva: Teatro do Vão 

Fotos: Alípio Padilha / Vasco Coelho



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

AVÓ MAGNÉTICA de Pedro Sousa Loureiro

No palco, cinco actores recordam as suas avós. O ponto de inspiração para esta celebração é a avó de Pedro, Margarida Oliveira, uma mulher que nas décadas de 60/70 viveu com um tio homossexual, e que aceitou a sexualidade do seu neto sem julgamentos. 

Para ser sincero, diria que isto na realidade não é uma peça, mas sim uma verdadeira celebração, não só das avós, mas também da vida LGBT+. Os actores enchem o palco, por vezes a plateia, com energia, loucura salutar e ritmo contagiante. Por vezes deu-me vontade de subir ao palco e dançar com eles. Mas não é só de risos que se vive aqui, também tem os seus momentos mais sérios, por vezes comoventes, como por exemplo quando Margarida Bento recorda as suas avós (vieram-me lágrimas aos olhos). Uma coisa é evidente, o amor e a admiração que os actores sentem pelas suas avós.

A imaginativa e colorida encenação, mistura teatro, com cinema, entrevistas, dança, canções e muita maluquice. Somos transportados pelo excelente grupo de actores, que nos fazem crer que tudo aquilo está a ser improvisado naquele momento, para uma festa onde se fala de muitas verdades com humor e carinho. Por vezes é o completo caos... e como eu gosto de ver caos no palco!

Quanto aos cinco actores em palco, estão todos muito bem. Pedro Sousa Loureiro aka Feathering transborda energia por todos os seus poros, Margarida Bento é a sensualidade em pessoa, Violeta Luz é deliciosamente louca, Ana Graça é mais ajuizada, mas com um bom grão de loucura, e Margarida Cardeal é espontânea e cheia de graça.

Numa nota muito pessoal, que até pode não fazer sentido aqui, mas que me apetece partilhar com vocês, a peça fez-me recordar a minha avó materna. 

Ela foi a minha companheira em muitas idas ao cinema, incluindo sessões de terror à meia-noite, bem como em algumas viagens a Londres e Nova Iorque. Nessas cidades, mesmo sem saber uma palavra de inglês, ia ver os musicais comigo e com o meu então namorado; acompanhava-nos também nas longas caminhadas pelas cidades, nós de ténis, ela sempre de salto alto. Lembro-me que não podíamos entrar no wc depois dela, pois se o fizéssemos ficávamos intoxicados com os quilos de laca que ela punha no cabelo. 

Foi ela que, quando eu comecei a namorar, convidou o meu namorado para um café a dois e disse-lhe que estava feliz por eu ter encontrado alguém que gostava de mim. Foi sempre uma mulher de mente aberta, que casou com o homem de quem gostava contra a vontade dos seus pais e que foi mãe aos 16 anos de idade. Não há dúvida, as nossas avós deixaram uma grande marca em todos nós!

Voltando a esta AVÓ MAGNÉTICA, devia ser acarinhada pela comunidade LGBT+ e pelo público em geral. Diria que mais que uma peça, é uma experiência que não vos vai deixar indiferentes. É sempre bom juntarmo-nos a uma festa cheia de alegria, que nos diz que devemos ter orgulho em quem somos, independentemente da nossa sexualidade ou entidade. O importante é sermos nós próprios, sermos felizes!

Elenco: Ana Graça, Margarida Bento, Margarida Cardeal, Pedro Sousa Loureiro aka Feathering, Violeta Luz 

Equipa Criativa: Criação, Produção e Realização: Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Texto: Miguel Stichini e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Música Original e Sonoplastia: Francisco Barahona aka Fresko • Participação em Video: Alex Azevedo, Ana Noronha Andrade, Gilvânio Souza Gigi e Marta Barahona Abreu • Desenho de Luz: Miguel Cruz

Fotos: Alípio Padilha


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O MEU AMIGO FREDDY KRUEGER de André Murraças

André Murraças leva-nos numa viagem nostálgica aos anos 90, uma altura em que a Internet era algo ainda distante e ainda se alugavam filmes nos clubes de vídeo. Nessa altura ele, um jovem homossexual, era alvo de bullying, homofobia e gordofobia. Quando descobriu o cinema de terror, identificou-se com os seus monstros que, tal como ele, eram colocados à margem pela sociedade e tornavam-se violentos como forma de sobreviverem. Entre esses monstros, o seu preferido era Freddy Krueger, com quem criou uma bela amizade.

Num cenário simples, repleto de referências visuais dos anos 80/90, André fala-nos do que o ligava ao cinema de terror, de como se relacionava com os seus colegas, da sua necessidade de fazer parte de um grupo de amigos, de como descobriu que o humor o podia ajudar na sua vida social, a descoberta dos musicais e do mundo do teatro. Tudo isto é feito com honestidade e humor.

Excertos de diversos filmes vão pontuando a noite, com especial relevo para os filmes da série PESADELO EM ELM STREET. Receio que uma importante referência cinéfila passe despercebida ao público em geral e talvez André devesse chamar a atenção para a mesma; refiro-me à cena do filme A CORDA de Alfred Hithcock, onde dois homens estrangulam outro, esses dois homens são um suposto casal gay e um dos actores, Farley Granger, também era gay na vida real. Também temos alguns momentos musicais, que foi onde eu achei que André se entrega mais. 

Tenho que confessar que me revi em muitas das coisas porque André passou; no meu caso nos anos 70/80. Talvez por isso, ia à espera de que o espectáculo tivesse uma forte componente emocional, mas não a senti e também achei que André falha (talvez por opção) em criar empatia com nós o público, mas consegue entreter-nos durante 90 minutos e nem dei pelo tempo passar.

Infelizmente, apesar de tudo o que já se conquistou em termos de direitos LGBT+, fazer uma peça destas, em que um actor expõe a sua sexualidade sem vergonha, ainda é um acto de coragem. Recentemente assisti a isso em ODE AOS MEUS HOMENS com Rafael Diaz Costa e agora foi a vez de André Murraças. Parabéns pela coragem!

Elenco: André Murraças

Equipa Criativa: Encenação, Texto, Cenografia, Genéricos e Grafismos Video: André Murraças • Video: Três Vinténs • Fotografia: André Murraças, Matilde Fernandes e Nicole Sánchez • Apoio Cenográfico: Cândida Maria • Produção Executiva: Nicole Sánchez • Produção: Canário Bonacheirão

Fotos: Leonardo Negrão 





quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ODE AOS MEUS HOMENS ou O MAIOR SILÊNCIO DO MUNDO de Rafael Diaz Costa

Num palco quase vazio, um actor entrega-se de alma e coração ao seu personagem, despido de moralismos, preconceitos, medos. A sua interpretação transborda de todos os seus poros, num tour de force que não deixa ninguém indiferente. 

O actor em questão é Rafael Diaz Costa, um dos jovens talentos que tive o prazer de descobrir no Teatro Rápido, onde nos deu um inesquecível PROFESSOR ROBERTO. Tal como nessa curta peça, o texto também é da sua autoria. A história, semiautobiográfica, fala-nos de um homem gay, das suas paixões, das suas perdas, dos seus sonhos. Duvido que haja algum homem gay que não se reveja em uma ou mais situações, o que faz deste retrato íntimo uma experiência emocional muito próxima de nós. 

Sempre disse que “menos é mais”, ou como com pouco se faz muito, e essa é a abordagem inspirada da encenadora Íris Macedo. Com meia-dúzia de objectos, uma eficaz iluminação de Filipe Pacheco, usando a sua e a nossa imaginação, ela consegue transformar o palco numa discoteca, num quarto e outros locais. Consegue evitar as lamechices, bem como a militância LGBT+, a que a história se podia prestar, e dá-nos um retrato honesto e sensível de um homem que só pretende amar e ser amado... não é que todos queremos?

Esta produção do Teatro Bravo merece a vossa atenção e aplauso. Por isso, façam o favor a vós próprios de irem ver esta ODE AOS MEUS HOMENS, onde Rafael Diaz Costa vai conquistar o vosso coração. Não se vão arrepender!

Elenco: Rafael Diaz Costa

Equipa Criativa: Encenação: Íris Macedo • Texto: Rafael Diaz Costa • Direção de Corpo: Margaria Borges • Desenho de Luz e Som: Filipe Pacheco • Voz Off: Gonçalo Lino Cabral • Produção: Teatro Bravo • Apoio à Produção: Teatro Papa-Léguas

Fotos: Filipe Ferreira