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segunda-feira, 8 de junho de 2026

MARCHA PRIDE 2026

Sete anos separam estas duas fotos. A primeira foi tirada na Marcha Pride de 2019, a primeira a que fui; a segunda foi este ano e é a segunda vez que participo na Marcha. É verdade, não fui nos anos que ficaram entre as duas datas. Confesso que não gosto de grandes ajuntamentos de pessoas e nunca fui militante seja lá o que for, daí a minha ausência nos outros anos. Mas este ano, tendo em conta o retrocesso que está a haver em relação a todos nós, achei que era importante enfrentar a minha fobia de grandes multidões e voltar a participar, o que fiz com muito orgulho.

Sempre que ouço alguém dizer que ser gay é uma escolha, fico possesso. Alguém no seu perfeito bom senso iria escolher ser algo que lhe vai dificultar a vida? Acredito que não. Assumirmos que somos gays é um acto de coragem, tanto para nós próprios como para os outros. Na verdade, não o devia ser, mas é ainda o é, e cada vez mais. 

Digam o que disserem, ser-se gay não é fácil, nunca foi e duvido que algum dia venha a ser. Apesar de todas os direitos adquiridos ao longo dos anos, continuamos a ser vistos como uma “anormalidade” aos olhos da sociedade maioritariamente heterossexual em que vivemos. Desde os que acham que somos uma ameaça à chamada “família natural”, aos que nos odeiam com medo de que os possamos converter ou mesmo aqueles que, pura e simplesmente, não gostam de nada que fuja ao que a sociedade determina como sendo normal.

Não sou daqueles que acho que todos devem “sair do armário”, pois em muitos casos isso pode significar uma vida muito complicada ou mesmo colocar em risco a sua própria vida. Como é do conhecimento geral, ou devia ser, muitos são os países (mais de 60) onde ser-se gay leva à prisão ou mesmo à morte. Durante muitos anos a homossexualidade foi considerada um crime (ainda o é, depende de onde se tem a sorte de viver) e foi vista também como uma doença (e ainda há quem ache isso).

Só um pequeno aparte. Aos saudosistas do tempo antes da revolução, só lhes digo que não nos podemos esquecer que, aos olhos do antigo regime, ser gay “era viver sob repressão severa, invisibilidade forçada e criminalização indirecta. A homossexualidade era tratada como um desvio moral, crime ou doença, impedindo qualquer movimento associativo ou expressão pública da identidade LGBT”.

Que eu tenha conhecimento, ainda não existe um censo oficial em Portugal que contabilize a orientação sexual e a identidade de género, mas alguns estudos internacionais apontam para uma estimativa entre 7% a 10% da população portuguesa, o que dá entre 700 mil e 1 milhão de pessoas. Portanto, somos muitos! Somos quase tantos como os que votaram no Chega nas últimas eleições e, para não ser chamado de faccioso, tantos como os que votaram no PS.

Voltando à Marcha deste ano, consta que éramos entre 50.000 a 60.000 pessoas. Uma coisa que não pude deixar de reparar, foi a quantidade de estrangeiros presentes e a forma como facilmente se integraram. Pessoalmente, acho que é bom que exista esta diversidade de nacionalidades.

E agora lá vem uma parte mais polémica, mas é a minha opinião, com a qual espero não ofender ninguém. A razão de ser da Marcha é, e sempre foi, para garantirmos ter os mesmos direitos e oportunidades que qualquer outro cidadão, bem como sermos respeitados por quem somos. Felizmente, por enquanto, conseguimos algumas dessas vitórias. Talvez por isso não concorde com a criação de leis especiais só para nós. Também não concordo com alguns dos cartazes que vi durante a Marcha, dos quais destaco dois exemplos: “abaixo o pacote laboral” (percebo a razão, mas não é um problema só nosso) e “que se foda a lei...” (durante anos lutámos por leis que nos protejam e agora vimos dizer que se foda a lei? Não faz sentido). 

Sei que alguns partidos políticos se servem da nossa luta para tentarem “vender” as suas ideologias e radicalismos de esquerda ou direita, mas não só não nos fica bem, como podem colocar em risco anos de luta. Se queremos respeito, também temos que o dar e, acima de tudo, temos que nos unir enquanto comunidade.

Compreendo a revolta contra um governo que, em vez de resolver problemas graves como a crise da habitação, SNS, etc, perde tempo a criar leis sobre o hastear de bandeiras em edifícios públicos, limita o ensino da abordagem da identidade de género e da diversidade e procura despenalizar as terapias de conversão, entre outras coisas. É como se a comunidade LGBT fosse um alvo fácil, e temo a perda dos nossos direitos. Por isso marchei este ano, mas não concordo com radicalismos de qualquer espécie.

Não me levem a mal, mas acho que ninguém consegue fixar todos os significados da nossa sigla LGBTQIAPN+ (não sei se existe alguma versão mais recente) e percebo que a mesma faça confusão a muita gente, dentro e, principalmente, fora da comunidade. Sendo uma “bicha” prática e já cota, prefiro usar o termo Queer para tudo, mas compreendo que haja pessoas que necessitem destas definições para se sentirem integradas. Não temos que aceitar tudo, mas temos o dever de respeitar.

Para terminar este longo texto, alguém me sabe explicar por que razão é que a organização do Arraial Pride parece ser só da competência da ILGA? Não devia ser algo organizado por todas as nossas associações LGBT? São estas divisões que me tiram do sério! 

Pelo que ouvi dizer, não fazem o Arraial este ano porque o Terreiro do Paço está preparado para a exibição de jogos de futebol. Mas será que a Câmara de Lisboa não tem outros espaços onde o nosso Arraial possa acontecer? Será que o Sr. Carlos Moedas nos vai, com toda a sua benevolência, conceder a autorização para fazer o Arraial em Julho ou está com receio do que o seu eleitorado possa pensar? Seja lá o que for, espero que, mais tarde ou mais cedo, se realize o nosso Arraial.

Os comentários estúpidos, agressivos e ignorantes que fizeram no Facebook à minha foto na Marcha, provam que estas marchas continuam a ser cada vez mais necessárias. Mas estamos cá, somos muitos e não temos medo de sermos quem somos; o lema este ano era: “Nem Silêncio, Nem Medo: Existimos e Resistimos” e não podia estar mais certo. Nunca se esqueçam que a nossa identidade sexual ou de género não nos define como pessoas, somos muito mais que isso! Um feliz e alegre Pride para todos!

Sabem uma coisa? Os homofóbicos destilam ódio e a parada passa!




terça-feira, 11 de julho de 2023

O MOTIM DE STONEWALL

INTRODUÇÃO

No dia 28 de Junho deste ano fez 54 anos que o motim de Stonewall teve lugar em New York, mais propriamente em Greenwhich Village. A propósito deste marco histórico na História da luta pelos direitos da comunidade Queer, ou LGBT se assim preferirem, tenho visto muitos comentários neste grupo e, como o meu conhecimento do assunto era superficial, decidi investigar sobre o assunto.

Assim, como prometido, aqui fica o resultado da minha pesquisa sobre Stonewall. Para variar não é a minha opinião (só no capítulo PENSAMENTOS FINAIS é que divago um pouco), mas sim os factos que encontrei em vários locais. Não estou aqui para tomar lados, agradar a todos, nem ferir susceptibilidades. Também não estou preocupado se acreditam/concordam ou não no resultado das minhas pesquisas (no final deste texto encontram os links que consultei sobre o assunto), mas pelo menos, para mim próprio, esclareci a história e a mitologia de Stonewall.

Acima de tudo, o mais importante é que Stonewall aconteceu e graças aos Queer presentes nessa noite histórica, e aos dias que se seguiram, a nossa luta ganhou contornos mais fortes!

ANTES DE STONEWALL

Ao contrário do que muitos de nós pensam, a luta pelos nossos direitos não começou essa noite em Stonewall. Tudo indica que começou em Berlim, Alemanha, em 1897, com a criação da Scientific-Humanitarian Committee, fundada por um judeu de origem alemã de nome Magnus Hirschfeld, que era médico e sexólogo.

A primeira organização LGBT de origem americana, foi fundada em 1924 por Henry Graber, com o nome “The Society for Human Rights”. Na década de 50, nascem a “The Mattachine Society”, fundada por um grupo de homens gay, e a “Daughters of Bilitis”, que consta ser o primeiro grupo lésbico a lutar pelos seus direitos. Estas três organizações editaram as primeiras revistas onde se falava abertamente dos problemas da comunidade Queer: “Friendship & Freedom”, “The Mattachine Review”, “The Ladder”.

A homossexualidade era considerada uma ofensa criminal em muitos dos estados americanos, incluindo o de New York. Entre as leis existentes, práticas gays eram ilegais e uma proibia os bares de venderem bebidas alcoólicas a gays, pois achavam que uma reunião de gays era um convite à desordem. Outra obrigava qualquer indivíduo a ter vestido pelo menos três peças de roupa apropriadas ao seu sexo biológico, caso contrário dava direito a prisão. Em 1966, a primeira lei foi refutada pela “The Mattachine Society” que desafiou os donos dos bares a expulsá-los por causa da sua sexualidade e quando estes o faziam processavam-os; entra a “Commission of Human Rights” que declara que os gays têm o direito de ser servidos, o que leva a uma redução das rusgas policiais.

O BAR STONEWALL

Em 1934 em Greenwich Village, abria um bar e restaurante com o nome Bonnie’s Stonewall Inn e assim se manteve até que em 1964 foi destruído pelo fogo e no ano seguinte é vendido.

Nos anos 60, a família mafiosa Genovese percebeu que podia fazer muito dinheiro com os gays e controlavam a maioria dos bares em Greenwich Village; são eles os novos donos do Stonewall Inn que renovam e reabrem em 1967 como um clube gay privado. Os seus clientes tinham que assinar (muitas vezes com nomes falsos) um livro quando entravam no bar, para dar a aparência que se tratava de um clube exclusivo, e era suposto serem eles a levar as suas próprias bebidas, assim evitando ser necessário a existência de uma licença para vender álcool. Entretanto, a Máfia subornava a polícia para que estes ignorassem o que se passava no interior do bar.

Pelo facto da polícia se manter afastada do bar, os seus donos podiam cortar nas despesas no que dizia respeito às condições do bar, bem como chantagearem os gays ricos que queriam esconder a sua sexualidade.

O bar não era muito caro, o que levava a que a sua clientela tivesse muitos jovens gays fugidos de casa, cujo poder económico era pouco ou nenhum. Tinha a particularidade de aceitar sem problema drag queens, que não eram bem aceites noutros bares. Outras das suas vantagens é que era dos poucos bares, ou mesmo o único, onde era permitido dançar no seu interior.

Claro que, de vez em quando, a polícia lá fazia umas rusgas, mas antes avisam o bar para que este “escondesse” as suas ilegalidades. Mas na noite de 28 de Junho de 1969, por razões desconhecidas, o bar não foi avisado da eminente rusga.

O MOTIM DE STONEWALL

Era uma normal noite de sábado quando a polícia invadiu o Stonewall apresentando um mandato que o permita fazer. No bar encontraram álcool ilegal e pessoas que não estavam devidamente vestidas de acordo com o seu género biológico. No total prenderam 13 pessoas, incluindo empregados.

Mas nessa noite, por razões que se desconhecem (rumores que o funeral de Judy Garland no dia anterior podia ter tornado a clientela mais susceptível, nunca foram confirmados, antes pelo contrário), os clientes do bar e os residentes da zona em vez de se afastarem do local reuniram-se em redor deste. De acordo com diversas fontes, tudo começou quando uma lésbica que estava a ser levada algemada para dentro de uma carrinha se queixou que as algemas estavam muito apertadas e como resultado o polícia agrediu-a na cabeça, o que levou a que ela gritasse, incentivando a pequena multidão a fazer alguma coisa. Este seu apelo levou a que os presentes começassem a atirar moedas, garrafas, copos e pedras (o famoso primeiro tijolo não está confirmado se aconteceu) contra a polícia.

Em poucos minutos, um verdadeiro motim com algumas centenas de pessoas ganhou força levando a polícia e alguns dos seus prisioneiros a barricarem-se no interior do bar. Entretanto, usando cocktails molotov improvisados, a multidão tentou incendiar o bar.

Consta que jovens gay e drag-queens de braço dado fizeram uma “kickline” ao estilo das Rockette, enquanto cantavam os seguintes versos:

“We are the Stonewall Girls

We wear our hair in curls.

We wear no underwear:

We show our pubic hairs.”

A chegada de bombeiros e mais polícia conseguiu travar o fogo e “salvar” as pessoas que estavam dentro do bar, ao mesmo tempo, entre gritos de protesto, conseguiram dispersar a multidão. Mas os protestos, cada vez com mais participantes, continuaram por mais noites.















OS NOMES DE STONEWALL

Vários nomes surgiram deste motim. De acordo com muita gente e confirmado por ela, Stormé DeLarverie foi a lésbica que incentivou a multidão a agir. Era conhecida por ser uma inovadora artista “drag” e nos anos 50/60 era a única imitadora de homens a actuar na Jewel Box Revue e, de acordo com ela, antes tinha sido guarda-costas da Mafia em Chicago. Ela era uma espécie de guardiã de Greenwich Village e, graças à sua participação no motim, ficou conhecida por “Rosa Parks of Stonewall.”

Ao contrário do que algumas pessoas afirmam, quando Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera chegaram ao bar naquela noite, por volta das 2 da madrugada, o motim já estava em marcha; a própria Johnson disse numa entrevista: “o lugar já estava a arder e já havia um motim. Os motins já tinham começado.” (the place was already on fire, and there was a raid already. The riots had already started.)

Marsha, cujo verdadeiro nome era Malcolm, havia trocado a sua família por New York, onde se encontrou a ele próprio como drag-queen, tendo afirmado: “Eu era um Zé ninguém, de Nowheresville até que me tornei uma drag queen. Foi isso que fez de mim quem eu sou em New York, quem eu sou em New Jersey, foi o que me fez quem eu sou no mundo.” (I was no one, nobody, from Nowheresville until I became a drag queen. That’s what made me in New York, that’s what made me in New Jersey, that’s what made me in the world.) Após Stonewall ela juntou-se ao grupo Gay Liberation Front e, juntamente com a sua amiga Sylvia, co-fundou STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries), que ajudava os queer sem abrigo a terem locais onde viver. Ela, que se assumia como “a gay person, a transvestite, and a drag queen”, foi um dos pilares da luta pelos direitos LGBT e era conhecida por “Santa Marsha”.

Tal como Marsha, também Sylvia Rivera se tornou um dos nomes proeminentes que saíram dos motins de Stonewall. De ascendência latina, Sylvia saiu de casa com cerca de 10 anos e foi viver para as ruas de New York como uma criança prostituta. As drag queens da zona, principalmente Marsha, decidiram “adoptá-la” e ela tornou-se uma drag queen e, mais tarde, transgender. Com Marsha criou o já referido STAR. Quanto à sua participação nos motins as versões variam; há quem diga que ela não esteve lá e quem defenda o contrário. A própria costumava brincar dizendo “que não atirou o primeiro cocktail molotov, mas que atirou o segundo. Mas o que importa é que após Stonewall se tornou uma verdadeira lutadora pelos direitos de nós todos, principalmente dos transsexuais.

PENSAMENTOS FINAIS

Depois de ter lido vários artigos e visto alguns vídeos, a verdade é que ninguém sabe ao certo como e quem começou o motim de Stonewall. O escritor Martin Duberman, escreveu no seu livro “Stonewall: The Definitive Story of the LGBTQ Rights Uprising that Changed America”, que um dos participantes nos motins, Eric Marcus, disse “Memória é aquilo de que nos lembramos, de como gostamos de recordar, e de como gostaríamos de ser ler lembrados.” E rindo-se, Duberman, disse “que estavam todos pedrados”.


No livro de David Carter “Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution”, este escreveu que Eric Marcus lhe disse que “Stonewall representa pessoas a retaliarem” e que, apesar ninguém saber exatamente o que aconteceu naquela noite “Stonewall é suficientemente grande para incluir todas as histórias.”

Carter escreveu que “na verdade o Pride não foi um protesto mas sim um motim – uma explosão de raiva. Os revolucionários de Stonewall estavam a lutar pelo seu direito de existirem. Não terem que se esconder; poderem andar na rua sua sem recearem pelas suas vidas. Foi sobre reclamar o direito a um espaço – físico, mental. Claro que a luta ainda não acabou: ainda hoje muita gente LGBT sente medo e são vítimas de violência – apenas por existirem como eles próprios.” (We often hear the words ‘Pride was a protest’ but in truth, Pride was a riot – it was an explosion of rage. The revolutionaries at the Stonewall Inn were fighting for their right to exist. Not to have to hide; to be able to walk down the street and not fear for their lives. It was about a reclaiming of space – physical, mental. Of course, the fight is not over: many LGBTQ+ people today still fear and experience violence – just for existing as themselves.)

Como li algures, a noite de Stonewall marcou a “saída do armário” da luta pelos nossos direitos. A verdade é que foi nessa noite que os frequentadores do bar decidiram que estavam fartos dos ataques de que eram alvo e, para muitos deles, pouco ou nada tinham a perder por lutar. Pode não se saber quem atirou a primeira pedra (se é que houve pedra), quem deu o primeiro grito de ataque, mas o importante é que nessa noite gays, lésbicas, drag queens, trans, pretos, brancos, gordos, magros, todos se uniram e mudaram para sempre a luta pelos direitos LGBT. Sei que todos temos tendência para tentar adaptar/interpretar a História ao nosso jeito, ao que nos interessa, mas factos são factos e ninguém tem o direito de enaltecer um grupo em detrimento de outro.

O Pride, que se festejou pela primeira vez um ano depois do motim, é um grito de raiva, de alegria, de protesto, de podermos ser quem queremos ser sem medo. Pode não ser o que todos gostaríamos que fosse, mas isso não lhe tira a importância e devia de nos unir em vez de nos dividir. Talvez um dia...
















BIBLIOGRAFIA:

https://www.nps.gov/articles/lgbtq-activism-henry-gerber-house-chicago-il.htm

https://www.history.com/topics/gay-rights/the-stonewall-riots

https://www.nyclgbtsites.org/site/stonewall-inn-christopher-park/

https://guides.loc.gov/lgbtq-studies/stonewall-era

http://www.glbtqarchive.com/ssh/mattachine_society_S.pdf

http://www.glbtqarchive.com/ssh/daughters_bilitis_S.pdf

https://www.nytimes.com/2021/05/13/learning/film-club-the-stonewall-you-know-is-a-myth-and-thats-ok.html

https://www.nationalgeographic.com/history/article/stonewall-uprising-ignited-modern-lgbtq-rights-movement

https://www.thedailybeast.com/the-stonewall-riots-what-really-happened-what-didnt-and-what-became-myth

https://news.harvard.edu/gazette/story/2019/06/harvard-scholars-reflect-on-the-history-and-legacy-of-the-stonewall-riots/

https://time.com/5598363/stonewall-beginnings-history/

https://www.nytimes.com/2019/06/16/us/revisiting-stonewall-memories-history.html

https://brooklynbrewery.com/activist-resources/history-of-the-stonewall-inn-riots/

https://thestonewallinnnyc.com/the-stonewall-inn-story/2017/4/4/ntmsg5ni7iixxdjimmg16hz6dvsi4v

https://www.nationalgeographic.com/amp-stories/stonewall-riots-50th-anniversary-lgbt-gay-pride-stories-resistance-resilience/

https://wams.nyhistory.org/growth-and-turmoil/growing-tensions/marsha-p-johnson/

https://www.routeyou.com/en-de/location/view/48143071/scientific-humanitarian-committee

https://www.gq.com/story/storme-delarverie-suiting

https://www.womenshistory.org/education-resources/biographies/marsha-p-johnson

https://www.womenshistory.org/education-resources/biographies/sylvia-rivera

https://en.wikipedia.org/wiki/Sylvia_Rivera

https://www.nbcnews.com/news/latino/forgotten-latina-trailblazer-lgbt-activist-sylvia-rivera-n438586

https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/stonewall-participants/


terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

ACTORES QUEER VS ACTORES HETERO












Para os membros mais distraídos da nossa "comunidade queer" chamo a atenção para o facto de neste momento termos em exibição nos nossos cinemas três filmes onde os principais protagonistas são queer.

No BATEM À PORTA um casal gay vê-se confrontado com uma terrível decisão que pode mudar o Mundo. Em A INSPEÇÃO um jovem gay inscreve-se nos Marines para ganhar auto-estima e a aprovação da sua mãe homofóbica. E para terminar, em TÁR uma obsessiva e talentosa maestra lésbica vê-se a perder o controle da sua vida.

Nos dois primeiros filmes os protagonistas são interpretados por actores assumidamente gay, Jonathan Groff & Ben Aldridge e Jeremy Pope. Em TÁR o papel principal é interpretado por uma actriz heterossexual, Cate Blanchett. Mas a verdade é que a sexualidade destes actores é completamente irrelevante para os papéis que desempenham. No BATEM À PORTA serem estes actores ou outros que não fossem gay, não traz nenhuma mais valia ao filme. E o mesmo pode se dizer quanto ao A INSPEÇÃO; consigo imaginar muitos outros actores a fazerem este papel. Já quanto ao TÁR não consigo imaginar outra actriz (talvez Glenn Close quando era mais nova) a fazer melhor o papel; Blanchett é divinamente extraordinária!

Isto levou-me a pensar nas vozes que condenam actores heterossexuais a representar papéis queer; acho isso um verdadeiro disparate! Um actor deve ser escolhido pelo seu talento e não pela sua sexualidade, identidade de género ou etnia. Se assim fosse, todos as actores queer não deveriam interpretar papéis heterossexuais e, tendo em conta a maioria dos filmes que se fazem, provavelmente raramente teriam trabalho. 

No passado, Rock Hudson (e outros) foi um dos grandes galãs do cinema e o facto de ser gay não o impediu disso. O mesmo posso dizer de Richard Chamberlain, o eterno Dr. Kildare. Sim, eram outros tempos e para sobreviverem tinham que permanecer nos seus “armários”, mas tiveram as suas carreiras sem a real necessidade do público saber com quem iam para a cama. Na realidade, nunca percebi muito o interesse pela vida íntima dos actores, a mim o que me interessa é o que eles fazem no ecrã mágico que é o Cinema. Talvez por isso seja contra a chamada “cancel culture”, onde um actor é condenado pelas suas escolhas pessoais em vez de ser admirado pelo seu talento, casos recentes como Kevin Spacey e Johnny Depp (este parece que já se safou) vêm-me à mente. Curiosamente no TÁR este tema é muito bem abordado.

Acho triste quando Eddie Redmayne, um actor heterossexual, diz que se arrepende de ter interpretado uma transsexual em THE DANISH GIRL, papel que lhe valeu uma nomeação para o Óscar, mas pelos vistos já não se importou de interpretar muito recentemente o papel do Mestre de Cerimónias na nova versão teatral de CABARET; fica bem ser-se politicamente correcto, mas um pouco de coerência faria bem ao Redmayne.

Mas felizmente o cinema está cheio de excelentes interpretações de personagens queer por actores que, seja do meu conhecimento, não o são: Tom Hanks em PHILADELPHIA, Hilary Swank em BOYS DON’T CRY, de novo Cate Blanchett em CAROL, Colin Firth em A SINGLE MAN, Firth e Stanley Tucci em SUPERNOVA, Hugh Grant em MAURICE, Sean Penn in MILK, Matt Damon em THE TALENT MR. RIPLEY, Charlize Theron em MONSTER, Greg Kinnear em AS GOD AS IT GETS, o trio de actores Hugo Weaving, Guy Pearce e Terence Stamp em THE ADVENTURES OF PRISCILLA QUEEN OF THE DESERT ou o trio Patrick Swayze, Wesley Snipes e John Leguizamo em TO WONG FOO THANKS FOR EVEYTHING JULIE NEWMAR, para terminar Heath Ledger e Jake Gyllenhaal (confesso, que desconfio que o Jake é gay) em BROKEBACK MOUNTAIN. Todos filmes que aconselho verem.

Por isso deixemo-nos de “paneleirices” (desculpo-me o termo, mas é o mais adequado que conheço) e vamos lá manter a mente aberta para todos os lados. Venham mais filmes LGBT que falem de temas que nos interessam e que, de certa forma, vão educando o grande público. Este, como sabem, quer ver bons actores no ecrã, independentemente da sua vida intíma, cor ou identidade de género. E eu também!

E agora, toca a levantarem o rabo das cadeiras, sofás e cama e vão ver estes três filmes ao cinema. Se não forem, depois não se podem queixar que raramente estreiam filmes queer nos nossos cinemas. 




domingo, 11 de abril de 2021

ALL WE NEED IS LOVE?

Será que ainda acreditamos no amor? É verdade, a maioria de nós deseja, ou acredita que deseja, ter uma relação estável, onde se sinta confortável e, de certa forma, seguro.

Todos sabemos que não há relações perfeitas; nem príncipes, princesas ou ursos encantados. Mas isso não nos impede de sonhar com o tipo de pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado. Cada um de nós tem um tipo físico pelo qual se sente atraído e isso não faz de nós preconceituosos ou menos inclusivos. Felizmente, não gostamos todos do mesmo e, muitas vezes, acabamos por sentir química com alguém que até pode não corresponder com a imagem que críamos na nossa cabeça.

 

Para mim, o mais importante é que haja empatia e química entre as duas pessoas; sem isso, duvido que alguma relação possa sequer iniciar-se. Para que esta possa ter algum futuro, é necessário que haja respeito mútuo e honestidade; uma mentira pode deitar tudo a perder. Apesar da opinião contrária de alguns, o sexo é muito importante e se a relação não funcionar nesse campo, então o melhor é ficarmo-nos pela amizade. Sim, às vezes, a fronteira entre o amor e a amizade é muito ténue e pode baralhar-nos.

 

Por razões que até acho que fazem sentido, conforme vamos ficando mais velhos (sou um cota de 56 anos), a hipótese de ter uma relação parece tornar-se cada vez mais difícil. Com o avançar da idade vamos criando os nossos hábitos e rotinas, as nossas defesas, há coisas para que já não temos paciência, já não estamos muito dispostos a alterar a nossa forma de ser e estar, fazer concessões já não é tão fácil, somos mais cautelosos e menos crentes. Será que isto faz de nós pessoas egoístas, cínicas e descrentes quanto ao amor? Acho que, acima de tudo, todos temos medo de nos magoarmos e de magoar os outros. Infelizmente, acredito que todos nós, já estivemos nos dois lados desta moeda.

 

Mas se não arriscamos, o que nos resta? Engates inconsequentes nas aplicações ou redes sociais? Sim, podem ser excitantes, mas também podem ser angustiantes. Podem fazer-nos sentir desejados, mas também nos podem fazer sentir vazios. Podem proporcionar-nos um momento de pura diversão, mas também podem revelar-se uma seca. Podem ser uma agradável surpresa, mas também podem ser uma grande decepção. Tudo sentimentos legítimos que muitos de nós já sentiram e que iremos sentir outra vez. Tudo isto faz-nos sentir vivos, o que é muito bom!

 

Encontrar alguém que encaixe na nossa vida não é fácil, mas fechar a porta não nos leva a lado nenhum a não ser à solidão. Claro que esta também tem as suas vantagens e quando se tem bons amigos, aprendemos a viver com ela. Mas, muitas vezes sentimos falta de ter alguém com quem partilhar as pequenas coisas da vida:  dar a mão no escuro do cinema, trocar um olhar cumplice, dormir em conchinha... E depois há o sexo com emoção, carinho, desejo e amor. Sim, temos que continuar a abrir a porta, mas com cuidado, para ninguém se magoar. 

 

O importante é nunca faltarmos ao respeito a nós próprios, nem ao outro, nunca deixarmos de ser quem somos e não exigir que os outros mudem a nosso gosto. Somos todos diferentes e cada um tem a sua forma de amar, de gostar. Não temos que aceitar nada que nos faça sentir desconfortáveis, nem que vá contra a nossa essência. Acima de tudo, perceber que não somos obrigados a aceitar nada, mas sim a respeitar as diferenças que no fundo definem quem nós somos.

 

Não sei se um dia se perde a capacidade de amar, mas quero acreditar que não. Pode não ser como as paixões que vemos nos filmes ou lemos nos romances, mas é um sentimento que nos faz sentir vivos, por vezes tristes, por vezes felizes, mas vivos! That’s life!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A PROPÓSITO DE “IT’S A SIN”

Três jovens homossexuais, Ritchie (Olly Alexander), Roscoe (Omari Douglas) e Colin (Callum Scott Howells), provenientes de meios diferentes, “fogem” para Londres nos anos 80, a fim de puderem viver a sua vida em liberdade. Os seus caminhos cruzam-se e acabam a partilhar o mesmo apartamento, juntamente com Jill (Lydia West) e Ash (Nathaniel Curtis). O que nenhum deles sabia é que muito em breve as suas vidas iriam mudar para sempre devido a uma nova doença chamada SIDA.

A série, da autoria de Russell T. Davies (QUEER AS FOLK), retrata o dia a dia deste grupo de amigos, como lidam com o aparecimento da SIDA e as consequências fatais que a mesma tem nas suas vidas; bem como a forma como as suas famílias reagem perante a aceitação ou não da sua homossexualidade e da doença.

 

Um convincente e, praticamente, desconhecido (exceção para Olly Alexander) grupo de jovens dá vida aos protagonistas principais deste drama. São secundados por algumas caras conhecidas, como os assumidamente gays Stephen Fry e Neil Patrick Harris, mas é Keeley Hawes, como a mãe de Ritchie, quem mais brilha no elenco. 

 

A série, que começa num tom mais ligeiro, vai-se tornando mais dramática e, diria, mesmo negra e forte. O seu criador, Russell T. Davies, não tem problemas em relatar o problema não só da SIDA, mas também da aceitação da homossexualidade, de forma crua e realista, sem “paninhos quentes”. Por isso e não só, esta série devia ser de visão obrigatória para toda a gente. 

 

As gerações mais novas parecem esquecer-se que ainda se morre de VIH e de SIDA. De acordo com um estudo que li em 2019, existiam no mundo 38 milhões de pessoas com VIH e morreram 690.000. Desde que esta doença foi diagnosticada, no mundo inteiro existiram perto de 75 milhões de casos, com cerca de 32 milhões de mortes. Números assustadores, certo?

 

Por cá, no relatório “Infeção VIH e SIDA em Portugal – 2020” da DGS, de Novembro 2020, com dados relativos a 2019, revela que no final de 2018 viviam em Portugal cerca de 41.000 infectados. Em relação a 2019 “foram diagnosticados 778 novos casos de infeção por VIH em Portugal, o que equivale a uma taxa de 7,6 casos/100 mil habitantes, não ajustada para o atraso da notificação. Foram ainda notificados 172 novos casos de SIDA e 197 óbitos ocorridos em 2019 em casos de infeção por VIH ou SIDA”. Os dados relativos ao período de 1983-2019, revelam mais de 61.000 casos e mais de 15.000 mortos. O relatório está disponível para consulta no link - http://hdl.handle.net/10400.18/7243

 

Voltando à série, logo no início, quando Ritchie vai de ferry para Londres, o seu pai oferece-lhe uma caixa de preservativos “para evitar que ele engravide alguma moça”. Com um sorriso malicioso nos lábios, Ritchie lança a caixa ao mar, selando assim o seu destino. Sim, por muito que não gostemos de usar o preservativo, este ainda continua a ser o método mais eficaz contra o VIH e outras doenças sexualmente transmissíveis. 

 

Claro que hoje, as coisas já não são tão dramáticas como foram nas décadas de 80 e 90, onde, acredito que todos nós, vimos morrer amigos e conhecidos. Nessa altura não havia PrEP e não se sabia que os pacientes que tinham carga viral indetetável dificilmente transmitiriam o vírus, nem sequer havia nenhum tratamento capaz de baixar dessa forma a carga viral. Mas atenção, estas duas situações apenas podem evitar a transmissão do VIH, mas não de outras doenças.

 

Ninguém é santo e quase todos nós, eu incluído, já estivemos em situações de risco. Por muita informação que tenhamos, a verdade é que às vezes no calor do momento, nos esquecemos disso e arriscamos a nossa sorte. Mais tarde, um pouco assustados, vamos fazer o teste à espera de que o resultado seja negativo, mas a verdade é que, se arriscámos, o mesmo pode ser positivo.


Um apontamento curioso na série, é o facto de um dos personagens mais promíscuos não estar positivo (ele próprio acha que é injusto) e o menos promíscuo estar. A vida é assim!

 

Tudo isto a propósito desta série, que nos fala de um tempo em que se morria com SIDA, nos piores casos com Sarcoma de Kaposi, onde ninguém sabia como lidar com a chamada “doença das bichas”. Morria-se sozinho e isolado do mundo. Direitos LGBT eram uma ilusão e pouca importância era dado a esta doença. Foi preciso morrer gente famosa como o Rock Hudson e o Freddie Mercury, para se começar a falar mais da doença e a procurar uma solução para a mesma. Talvez porque se achou e ainda se acha, que é uma doença que só aflige uma minoria, quase 40 anos depois do seu aparecimento, continua a não a existir uma vacina. Só para comparação, o COVID19 apareceu há pouco mais de um ano e já existem várias vacinas no mercado.

 

Isto já vai longo e longe de mim querer ser chato, mas ainda tenho algo mais para dizer. Ao contrário de outro tipo de doenças, o VIH e SIDA trazem consigo o síndroma da vergonha. Para o teres contraído é porque fizeste sexo, provavelmente com gays, ou então és drogado; felizmente ou infelizmente, a doença não é exclusiva destes grupos, mas ainda é assim que é vista pela sociedade em que vivemos.

 

Mais grave ainda, mesmo no meio LGBT, existe um forte estigma em relação aos portadores do VIH. Essas pessoas sentem-se postas de parte pela maioria e acabam por se isolar ou então de omitir que são sero-positivos, a fim de poderem ter uma vida sexual satisfatória. É pena que assim seja, pois seria mais seguro para todos se pudéssemos ser abertos em relação às doenças sexualmente transmissíveis (e porrra! Há tantas!) e tomarmos as devidas precauções de forma a que estas não se propaguem e o preservativo continua a ser um fiel aliado.

 

Depende de todos nós acabar com o estigma deste tipo de doenças e aprender a respeitar os portadores das mesmas, não os pondo de lado, mas sim aceitando-os e dar-lhes o apoio que necessitam... e o sexo também! Mas façam-no com cuidado! Se não nos apoiarmos uns aos outros, ninguém o fará. 


Agora deixo-vos em paz e vão lá ver a série ou amar alguém!







sábado, 31 de outubro de 2020

A MONTRA DO TALHO: GRINDR E OS OUTROS

Aviso: este meu texto pode ferir suscetibilidades e poderá não ser politicamente incorrecto.

Quem, como eu, saiu de uma longa relação e de repente se vê confrontado com as novas tecnologias de engate, a coisa pode ser um pouco estranha. No meu tempo os engates eram feitos nos bares, cinemas, rua, centro comerciais... era tudo ao vivo e a cores.


Se nesses tempos eu já me senti, quando fui ao Bric, um simples pedaço de carne cobiçado por uns, desprezado por outros. Hoje essa ligação ao talho é ainda mais forte e a app Grindr não podia ter escolhido um nome mais apropriado. As outras podem ter outros nomes, mas o resultado final é o mesmo. São todos montras e nós pedaços de carne à espera da melhor oferta ou, simplesmente, de uma oferta. A sensação de rejeição é palpável e a ausência de sentimentos assustadora. Não há mal nenhum em fazer sexo por sexo, mas parece que é apenas isso que as pessoas procuram.

 

Com 56 anos já me podem chamar de cota, ou de daddy, o que é mais simpático. Com esta idade talvez já esteja velho para esta coisa das apps. Provavelmnete, já todos estivemos, estamos ou vamos estrar no Grindr, Scruff e outros tais. Confesso que saí dessas apps ao fim de algumas semanas; aquilo causava-me angústia. Há poucas semanas instalei o Tinder, que é mais levezinho, mas também não desenvolve. 

 

Quando entramos nessas aplicações, aparece-nos a montra do produto que está disponível, ou supostamente disponível, e é só escolher. Pode-se dizer que há homens para todos os gostos e idades, mas por muito inclusivos que nós sejamos, a verdade é que a imagem exterior que nos desperta a atenção ou a simples tusa. Se gostamos de gordos, os magros passam-nos ao lado; se preferimos machões super masculinos, os afeminados estão fora da nossa esfera; se temos mais apetite por carne fresca, os cotas ou daddys não nos dizem nada; se gostamos de negros, os brancos passam para segundo plano. Quanto aos feios e bonitos é tudo muito subjectivo; ele até há feios bonitos e bonitos feios. Mas de uma forma ou outra, somos todos pedaços de carne em exposição e, salvo raras excepções, somos tratados dessa forma e acabamos por fazer o mesmo.

 

Gosto de acreditar que mesmo neste “mercado carnal” é possível fazer-se amizades e conhecer pessoas interessantes. Mas a maior parte das vezes, um simples café está fora de questão. Recebemos fotos do rabo e pila, mas revelar a cara é mais complicado e, mesmo um encontro para sexo casual, não é fácil. Julgo que a preferência é a punheta virtual, daí a troca infindável de fotos e vídeos. Nestes tempos de COVID compreendo, mas já antes era assim.

 

Não sei o que futuro nos reserva no que diz respeito a formas de como vamos interagir uns com os outros, mas tenho esperança de que estas se humanizem. Todos precisamos do contacto humano, de um simples abraço, de uma festa na cabeça, de um simples passeio a dois, companhia no cinema, um jantar sem segundas intenções e, claro, que todos nós também gostamos e precisamos de sexo, mas este não tem que ser sempre impessoal, um simples, desculpem a expressão, despejar de colhões.




terça-feira, 19 de março de 2019

FANTASMAS RELIGIOSOS

Não me recordo de nenhum momento na minha vida em que eu não soubesse que era homossexual. É verdade que tive, sei lá bem porque razão, uma namorada quando andava na escola primária, mas a coisa durou poucos dias. Uns anos mais tarde, quando fui pela primeira vez ao Brick (agora conhecido como Construction) e não me identifiquei com nenhum dos presentes, questionei-me durante umas horas sobre a minha sexualidade, mas não havia qualquer dúvida. Era por membros do meu sexo que sempre me senti atraído.

Olhando para trás, percebo perfeitamente que poderia ser um gay completamente desajustado e cheio de problemas de consciência. Mas por razões que desconheço, consegui dar a volta por cima e ser quem sou hoje.

Quando tinha cerca de 4 anos de idade, os meus pais tornaram-se Testemunhas de Jeová, e permaneceram nessa religião durante mais de 10 anos, sendo eu obrigado a segui-los. Lembro-me de no início essa religião ser proibida (situação que só se alterou após a revolução do 25 de Abril) e as reuniões serem feitas “às escondidas” em casa dos diversos membros. Mas o que mais me recordo desses primeiros anos, era o facto de não poder festejar o Natal, nem fazer festas de aniversário. 

Durante todos os anos em que fiz parte dessa religião, foi-me sempre incutido o sentimento do pecado e o receio do castigo de Deus se eu pecasse. Para uma criança que começa a despertar para o sexo, a ideia de pecado pode ser uma coisa aterradora, mas também muito excitante. Claro que temia sempre o possível castigo Divino, mas isso não impedia de, ainda na escola primária, entrar nos deliciosos jogos do “mostra-me a tua que eu mostro-te a minha”. Ou melhor ainda, “se mexeres na minha eu mexo na tua”.

Acho que posso afirmar que era um rebelde bem comportado, que tinha descoberto que sexo com outros meninos, apesar de ser um pecado mortal, era algo demasiado excitante para desperdiçar. O que eu não sabia então, é que a minha paixão pelo cinema no geral e pelo musical em particular, bem como o fascínio que tinha por Barbra Streisand e Julie Andrews, eram fortes indícios da minha emergente homossexualidade.

Voltando à religião, conforme ia crescendo tinha cada vez menos paciência para as aborrecidas reuniões e senti-me cada vez mais revoltado pelo facto de quase tudo ser pecado. Foi então que aconteceu algo que viria a ajudar-me a mudar os meus sentimentos sobre tudo isto. Como não tinha paciência para os longos discursos com que éramos prendados durante as reuniões, entretinha-me a ler a Bíblia e, aos poucos e poucos, fui-me apercebendo que, como qualquer outro livro, a mesma estava aberta a várias interpretações. Assim comecei a pôr em causa, não a existência de Deus, mas a  religião em si, ao mesmo tempo que continuava com as minhas brincadeiras sexuais com outros rapazes. Uma coisa eu sabia, não era o único gay na zona.

Acredito que, como eu, houvessem outros homossexuais entre os membros da religião, mas nunca abordei nenhum deles, nem tive relações com eles. Para mim, sexo e religião não se misturavam. O melhor era manter essa minha faceta afastada dos outros membros.

Por razões que nada tiveram a ver comigo, os meus pais afastaram-se da religião quando eu tinha 14 anos e no dia do meu 15º aniversário festejei a minha primeira festa de anos. Sentia-me liberto de toda aquela opressão religiosa, mas no fundo do meu consciente uma vozinha continuava a dizer-me que ser homossexual era um pecado mortal, condenado pela Bíblia.

A fim de enfrentar os meus fantasmas, alimentados por anos de religião, decidi voltar às Testemunhas de Jeová uns anos mais tarde. Desta vez estava preparado; até tinha encontrado uma relação gay na Bíblia, entre o rei David e seu amigo Jonatã: “E sucedeu que, assim que acabou de falar a Saul, a própria alma de Jonatã se ligou à alma de David, e Jonatã começou a amá-lo como a sua própria alma.” (1º Samuel 18.1) – “Estou aflito por ti, meu irmão Jonatã, tu me eras muito agradável. Teu amor a mim era mais maravilhoso do que o amor das mulheres.” (2º Samuel 1.26). 
Não queria um estudo bíblico de como o mundo tinha começado e como ia ser bom sobreviver ao Armagedão (o fim da nossa civilização às mãos de Deus) e viver para sempre num novo paraíso. Tinha diversas perguntas e necessitava de resposta às mesmas. Exigia que essas respostas me fossem dadas por textos na Bíblia e não por livros escritos por homens que a tinham interpretado ao seu modo, tendo em conta os seus interesses. Tal como calculava, muitas das minhas perguntas não tinham resposta e abandonei uma vez mais a religião, mas já sem fantasmas.

Uma coisa aprendi lá. A fim de sermos aceites por Deus e pelos outros, temos primeiro que nos aceitarmos a nós próprios. Só podemos estar bem com Deus se estivermos bem connosco. Só assim poderemos encontrar a felicidade e viver uma vida sem receio.

Curiosamente, nunca deixei de acreditar em Deus como uma entidade sobrenatural e, ainda hoje, começo sempre o dia com uma oração. Velhos hábitos são difíceis de perder e confesso que ainda encontro conforto nestas minhas orações diárias.

por Jorge Tomé Santos