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segunda-feira, 4 de maio de 2026

O CATIVO (EL CAUTIVO) de Alejandro Amenábar

Antes de escrever o famoso “Don Quixote”, Miguel de Cervantes esteve cativo na Algéria, onde o seu “dono” era um poderoso Pachá, que se interessou por ele em vários aspectos. É durante o seu tempo em cativeiro que ele começa a contar histórias. Com excepção do seu “Dom Quixote” (que nunca li, mas vi o filme na sua versão musical), confesso que desconhecia totalmente a vida de Miguel de Cervantes; graças a este drama histórico, já fiquei a saber um pouco. 

Partindo do princípio que os factos retractados no filme correspondem à verdade, é curioso perceber de onde veio a sua inspiração para os personagens principais do seu “Dom Quixote”. Mas, para mim, o mais interessante é a história de amor/atracção entre Cervantes e o Pachá (um muito jeitoso e sexy Alessandro Borghi) e a forma sensual como evolui; não fazia a mínima ideia de que Cervantes era gay ou pelo menos bissexual. Na verdade, o filme tem uma atmosfera muito queer, revelando-nos uma cidade argelina onde o sexo flui sem tabus. É também interessante ver como a sombra da religião católica se faz sentir e não de forma muito positiva. 

No papel de Cervantes, Julio Peña, com o seu olhar de “carneiro mal morto”, faz lembrar o jovem Joseph Fiennes; o seu Cervantes é um homem apaixonado pela vida e pelo poder das palavras. Apesar de ter achado o filme demasiado longo, a verdade é que nunca aborrece e é um bom exemplo do género.

Classificação: 6 (de 1 a 10)


terça-feira, 12 de março de 2024

CULPADO - INOCENTE - MONSTRO (Kaibutsu / Monster) de Kore-eda Hirokazu

A História: Uma mãe procura respostas que justifiquem o comportamento estranho do seu filho Minato, que tudo indica ser vítima de actos de violência por parte de um dos seus professores

O Elenco: Sakura Andô é muito boa como a mãe preocupada e Eita Nagyama vai muito bem como o professor suspeito. Mas o filme pertence, por direito, a Soya Kurokawa como Minato e Hinata Hiiragi como seu amigo Yori.

O Pior do Filme: O facto de poder passar despercebido nos nossos cinemas e poder ser ignorado pela comunidade Queer.

O Melhor do Filme: A cena na sala de música entre Minato e a diretora da escola é um momento comovente e cheio de significado, que culmina com a frase “If only some people can have it, that’s not happiness. That’s just nonsense. Happiness is something anyone can have” (Se apenas algumas pessoas a podem ter, então não é felicidade. É apenas um disparate. Felicidade é algo que todos podem ter.)

Veredicto Final: O argumento da autoria de Yûji Sakamoto, justamente premiado com o prémio de Cannes nessa categoria, está muito bem construído, mostrando-nos três perspectivas da mesma história. Primeiro (CULPADO) pelo lado de uma mãe preocupada que condena um professor; segundo (INOCENTE) pelo lado de um professor culpado de algo de que provavelmente não tem culpa; terceiro (MONSTRO) pelo lado de uma criança que sente que não é igual aos outros. Pegando nestas três perspectivas, o realizador Kore-eda Hirokazu dá-nos um drama humano com tons de thriller, que nos cativa, sensibiliza e, por vezes, nos comove.

O facto do filme ter ganho em Cannes a Queer Palm, revela que no seu âmago estamos perante uma história sobre a descoberta de sentimentos supostamente pouco normais, que leva a que os miúdos achem que possam ser uns monstros. Mas é uma bonita história sobre amizade e aprendermos a ser quem somos. Recomendo.

Classificação: 7 (de 1 a 10)










segunda-feira, 25 de setembro de 2023

CASSANDRO de Roger Ross Williams

Saúl é um ‘luchador’ (lutador) amador que não esconde a sua sexualidade e decide mostrá-la ao mundo como Cassandro, um ‘luchador’ exótico que, ao contrário dos outros, vence nos ringues. Torna-se famoso e um exemplo positivo para outros homossexuais.

Como devem calcular nunca percebi muito bem o gozo de ver estas lutas (wrestler) super encenadas, nem acho graça nenhuma às mesmas. Assim, nunca tinha ouvido falar deste famoso Cassandro, cuja vida é retratada com humor neste filme biográfico. A sua vida não foi fácil, mas também não existe nada de muito dramático na mesma, pelo que a sua ascensão não parece ter sido muito difícil e talvez tivesse sido interessante perceber mais como se tornou tão acarinhado por um público homofóbico. Mas o realizador Roger Ross Williams trata o seu herói com carinho e respeito, prendendo-nos a atenção desde o início até ao final.

No papel principal, Gael García Bernal é excelente e cativa a nossa simpatia rapidamente. Bernal é sem dúvida um dos melhores e mais versáteis actores da sua geração e não ficaria surpreendido se ele estivesse entre os nomeados aos próximos Óscares para Melhor Actor, ele merece! Com um sorriso contagioso e um brilho no olhar é impossível não sentirmos empatia com ele. Só por si vale a pena ver este CASSANDRO e o restante elenco secunda-o muito bem.

Classificação: 6 (de 1 a 10)
















sexta-feira, 25 de setembro de 2020

EL CAZADOR de Marco Berger


A História:
 Ezequiel é um jovem gay de 15 anos a explodir de desejo sexual. Um dia conhece um rapaz um pouco mais velho que ele e os dois “enrolam-se”, mas acaba por descobrir que este o usou para uma rede de pornografia infantil/juvenil. Chantageado pelo “chefe” dessa rede, cabe-lhe seduzir jovens para vídeos clandestinos.

 

O Filme: Pois é, a história é estimulante e promete um thriller cheio de suspense e erotismo, mas Marco Berger, realizador e argumentista do filme, esticou a história por quase duas dolorosas horas, sem emoção e de um pseudo erotismo envergonhado. 


Este não é o primeiro filme de Marco Berger que vejo e ele é perito em criar situações carregadas de tensão sexual em que nada acontece, mas aqui nem essa tensão se faz notar; é uma espécie de teaser. Falando em bom português, este filme é um empata-fodas!


O jovem Juan Pablo Cestaro convence como o moço cheio de desejo e até tem química com o rapaz mais velho (um sexy Lautano Rodriguez). O seu personagem é, no entanto, demasiado apático; por exemplo, na crucial cena em casa do primo do moço mais velho, ele percebe que algo não está bem, a música de fundo diz-nos o mesmo, mas não faz nada para tentar descobrir o que se passa.


Em termos de erotismo, até os beijos são envergonhados. A câmara percorre sensualmente um ou outro corpo (o melhor é o do duche), mas fica-se por aí, não aquece nem arrefece. O melhor é o final, que merecia um filme mais interessante e tenso.

 

Classificação: 3 (de 1 a 10)








segunda-feira, 25 de março de 2019

UMA CRIANÇA COMO JAKE (A Kid Like Jake) de Silas Howard

A História: Um casal, aparentemente feliz, vê-se confrontados com a possibilidade do seu filho de 4 anos poder vir a ser um transexual. Isto ao mesmo tempo que tentam encontrar a escola certa para o puto.

O Filme: Como seria a vossa reacção se o vosso filho ou filha demonstra-se desde tenra idade que preferia ser do sexo inverso do seu? Acredito, que não seja uma situação fácil de viver, por muito mente aberta que os pais possam ter. É esse o assunto de base deste drama, onde a personagem do miúdo é praticamente secundária, sendo, no entanto, ela a razão de tudo o que acontece.
É um tema actual que, nos últimos anos, tem sido muito falado nos media e que causa confusão a muita gente. Alguém que é transexual não tem que ser necessariamente homossexual; são duas coisas distintas e esta implica uma possível transformação física. 
O realizador Silas Howard aborda o assunto pela perspectiva dos pais, adaptando ao cinema a peça de teatro de Daniel Pearle, que é o responsável pelo argumento do filme, mas fá-lo de uma forma muito séria, pesada. Um pouco mais de humor, tornaria o ambiente mais leve e, talvez, mas cativante para nós espectadores. Na minha humilde opinião, sinto que o filme poderia ter ido mais longe e podia ter mexido mais com as nossas emoções. O assunto é sem dúvida fascinante, mas gostava também de ter visto o lado do pequeno Jake, mas isso seria outro filme, certo?
Como os pais, Claire Danes é toda ela emoção, dor e cegueira; quanto a Jim Parsons, é contido e demonstra uma mente mais aberta (enganem-se os que pensam que vão ver a personagem que ele criou no THE BIG BANG THEORY). Num papel secundário, Octavia Spencer é excelente como a compreensiva professora que percebe a luta interior do pequeno Jake.
Se gostam de dramas e boas interpretações, vão apreciar este filme. Pessoalmente, acho que com um pouco de humor é mais fácil mudar a opinião das pessoas.

Classificação: 6 (de 1 a 10)



sexta-feira, 29 de junho de 2018

COM AMOR, SIMON (Love, Simon) de Greg Berlanti


A História: Simon é um teenager com uma vida excelente, mas que tem um segredo que o corrói, ele é gay. Quando um dia alguém do seu liceu publica um post em que diz ser gay, ele decide responder e apaixona-se por esse alguém. O problema é que o seu segredo pode ser exposto a qualquer momento.

O Filme: Pelo resumo do argumento, poderão pensar que estamos perante um grande dramalhão, mas não é verdade. O realizador Greg Berlanti (THE BROKEN HEARTS CLUB: A ROMANTIC COMEDY) dá-nos uma comédia engraçada, repleta de bom humor, com algumas cenas muito divertidas, mas também com muita emoção. Okay, eu confesso, chorei numa das cenas!
Presentemente, o cinema LGBT parece estar a ter uma maior divulgação e, para variar, está a começar a dar uma imagem mais positiva sobre o tema. Este ano já pudemos ver o excelente CALL ME BY YOUR NAME, e agora com este LOVE, SIMON, continuamos no caminho de filmes temáticos produzidos a pensar no grande público; portanto nada de chocante por aqui, pode ser tudo muito casto, mas o importante está aqui. A aceitação de sermos quem somos e a conquista do respeito dos outros.
No papel principal, Nick Robinson, é simpático e um bocado assexuado, mas estamos a falar de um personagem que ainda não fez sexo, por isso acho que ele até vai muito bem. Como os seus pais, Jennifer Gerner e Josh Duhamel são comoventes e Katherine Langford é óptima como a amiga apaixonada e compreensiva. No entanto é Logan Miller, como o parvalhão do Martin, o colega de Simon que faz chantagem com ele, quem mais sobressai.
As mentes mais conservadoras não têm nada a temer e esta comédia juvenil é um verdadeiro “feel-good movie”; duvido que no final não estejam todos a torcer pela felicidade de Simon.

Classificação: 7 (de 1 a 10)











segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

CHAMA-ME PELO TEU NOME (Call Me by Your Name) de Luca Guadagnino

A História: Itália 1983. Férias de Verão. A família de Elio, um jovem de 17 anos, recebe em sua casa o estudante americano Oliver, que vai ajudar o pai de Elio nas suas pesquisas arqueológicas. Apesar de algum antagonismo inicial, Elio e Oliver apaixonam-se um pelo outro.

O Filme: Há filmes assim, em que tudo encaixa na perfeição e cujo resultado final fica connosco para sempre. O realizador Luca Guadagnino capta com sensibilidade uma belíssima história de amor e com nostalgia a atmosfera dos Verões da nossa juventude, de uma época em que a vida era mais simples e as mentes mais abertas.
O filme é como que uma suave brisa de Verão que nos inebria com a sua quente fotografia, com os aromas da natureza, o calor dos personagens, a banda sonora perfeita, a sensualidade à flor da pele, os apontamentos certos de humor... é um filme que nos desperta todos os sentidos e nos faz sentir apaixonados, com momentos hilariantes pelo meio, como a cena do pêssego (nunca mais vou olhar para um pêssego da mesma maneira).
Adaptando um romance de André Aciman, que não li, James Ivory tem um regresso prodigioso ao cinema, dando-nos um argumento fabuloso que combina na perfeição com a realização de Guadagnino. Não nos podemos esquecer que foi Ivory que, em 1987, nos deu MAURICE, um clássico do cinema gay.
O elenco é verdadeiramente notável. O jovem Timothée Chalamet é uma verdadeira revelação como Elio, transmitindo tudo o que um adolescente sente na descoberta da sua sexualidade, um poço de emoções em conflito, pronto a explodir em qualquer momento. A seu lado o “borracho” do Armie Hammer é muito mais que uma cara e um corpo perfeito; no “The Hollywood Repoorter” dizem sobre a sua interpretação algo que não podia ser mais acertado: “quando uma estrela se transforma em actor” e que actor! A química entre Chalamet e Hammer é tão natural como a sua sede e ambos se entregam apaixonadamente aos seus personagens. Os olhares furtivos, os toques tímidos, o desejo latente... eles são o par perfeito! A câmara também está apaixonada por eles e filma os seus corpos de forma elegante, sensual e acariciante,
Brilhante é, também, Michael Stuhlbarg como pai de Elio. Um personagem bem-disposto e que, perto do final, tem um dos mais emocionantes discursos que ouvi nos últimos anos e que me pôs a chorar. Uma verdadeira cena de antologia! Amira Casar como a sempre atenta mãe e Esther Garrel como a namorada apaixonada de Elio, também vão muito bem.
Isto é cinema de grande qualidade! Não se assustem por ser uma história de amor gay entre um puto de 17 anos e um homem de 24 anos, acreditem que é tudo filmado com cuidado, amor e um carinho puro pelos personagens. É como um poema romântico e lírico em forma de filme, inesquecível! 

Classificação: 9 (de 1 a 10)