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segunda-feira, 8 de junho de 2026

MARCHA PRIDE 2026

Sete anos separam estas duas fotos. A primeira foi tirada na Marcha Pride de 2019, a primeira a que fui; a segunda foi este ano e é a segunda vez que participo na Marcha. É verdade, não fui nos anos que ficaram entre as duas datas. Confesso que não gosto de grandes ajuntamentos de pessoas e nunca fui militante seja lá o que for, daí a minha ausência nos outros anos. Mas este ano, tendo em conta o retrocesso que está a haver em relação a todos nós, achei que era importante enfrentar a minha fobia de grandes multidões e voltar a participar, o que fiz com muito orgulho.

Sempre que ouço alguém dizer que ser gay é uma escolha, fico possesso. Alguém no seu perfeito bom senso iria escolher ser algo que lhe vai dificultar a vida? Acredito que não. Assumirmos que somos gays é um acto de coragem, tanto para nós próprios como para os outros. Na verdade, não o devia ser, mas é ainda o é, e cada vez mais. 

Digam o que disserem, ser-se gay não é fácil, nunca foi e duvido que algum dia venha a ser. Apesar de todas os direitos adquiridos ao longo dos anos, continuamos a ser vistos como uma “anormalidade” aos olhos da sociedade maioritariamente heterossexual em que vivemos. Desde os que acham que somos uma ameaça à chamada “família natural”, aos que nos odeiam com medo de que os possamos converter ou mesmo aqueles que, pura e simplesmente, não gostam de nada que fuja ao que a sociedade determina como sendo normal.

Não sou daqueles que acho que todos devem “sair do armário”, pois em muitos casos isso pode significar uma vida muito complicada ou mesmo colocar em risco a sua própria vida. Como é do conhecimento geral, ou devia ser, muitos são os países (mais de 60) onde ser-se gay leva à prisão ou mesmo à morte. Durante muitos anos a homossexualidade foi considerada um crime (ainda o é, depende de onde se tem a sorte de viver) e foi vista também como uma doença (e ainda há quem ache isso).

Só um pequeno aparte. Aos saudosistas do tempo antes da revolução, só lhes digo que não nos podemos esquecer que, aos olhos do antigo regime, ser gay “era viver sob repressão severa, invisibilidade forçada e criminalização indirecta. A homossexualidade era tratada como um desvio moral, crime ou doença, impedindo qualquer movimento associativo ou expressão pública da identidade LGBT”.

Que eu tenha conhecimento, ainda não existe um censo oficial em Portugal que contabilize a orientação sexual e a identidade de género, mas alguns estudos internacionais apontam para uma estimativa entre 7% a 10% da população portuguesa, o que dá entre 700 mil e 1 milhão de pessoas. Portanto, somos muitos! Somos quase tantos como os que votaram no Chega nas últimas eleições e, para não ser chamado de faccioso, tantos como os que votaram no PS.

Voltando à Marcha deste ano, consta que éramos entre 50.000 a 60.000 pessoas. Uma coisa que não pude deixar de reparar, foi a quantidade de estrangeiros presentes e a forma como facilmente se integraram. Pessoalmente, acho que é bom que exista esta diversidade de nacionalidades.

E agora lá vem uma parte mais polémica, mas é a minha opinião, com a qual espero não ofender ninguém. A razão de ser da Marcha é, e sempre foi, para garantirmos ter os mesmos direitos e oportunidades que qualquer outro cidadão, bem como sermos respeitados por quem somos. Felizmente, por enquanto, conseguimos algumas dessas vitórias. Talvez por isso não concorde com a criação de leis especiais só para nós. Também não concordo com alguns dos cartazes que vi durante a Marcha, dos quais destaco dois exemplos: “abaixo o pacote laboral” (percebo a razão, mas não é um problema só nosso) e “que se foda a lei...” (durante anos lutámos por leis que nos protejam e agora vimos dizer que se foda a lei? Não faz sentido). 

Sei que alguns partidos políticos se servem da nossa luta para tentarem “vender” as suas ideologias e radicalismos de esquerda ou direita, mas não só não nos fica bem, como podem colocar em risco anos de luta. Se queremos respeito, também temos que o dar e, acima de tudo, temos que nos unir enquanto comunidade.

Compreendo a revolta contra um governo que, em vez de resolver problemas graves como a crise da habitação, SNS, etc, perde tempo a criar leis sobre o hastear de bandeiras em edifícios públicos, limita o ensino da abordagem da identidade de género e da diversidade e procura despenalizar as terapias de conversão, entre outras coisas. É como se a comunidade LGBT fosse um alvo fácil, e temo a perda dos nossos direitos. Por isso marchei este ano, mas não concordo com radicalismos de qualquer espécie.

Não me levem a mal, mas acho que ninguém consegue fixar todos os significados da nossa sigla LGBTQIAPN+ (não sei se existe alguma versão mais recente) e percebo que a mesma faça confusão a muita gente, dentro e, principalmente, fora da comunidade. Sendo uma “bicha” prática e já cota, prefiro usar o termo Queer para tudo, mas compreendo que haja pessoas que necessitem destas definições para se sentirem integradas. Não temos que aceitar tudo, mas temos o dever de respeitar.

Para terminar este longo texto, alguém me sabe explicar por que razão é que a organização do Arraial Pride parece ser só da competência da ILGA? Não devia ser algo organizado por todas as nossas associações LGBT? São estas divisões que me tiram do sério! 

Pelo que ouvi dizer, não fazem o Arraial este ano porque o Terreiro do Paço está preparado para a exibição de jogos de futebol. Mas será que a Câmara de Lisboa não tem outros espaços onde o nosso Arraial possa acontecer? Será que o Sr. Carlos Moedas nos vai, com toda a sua benevolência, conceder a autorização para fazer o Arraial em Julho ou está com receio do que o seu eleitorado possa pensar? Seja lá o que for, espero que, mais tarde ou mais cedo, se realize o nosso Arraial.

Os comentários estúpidos, agressivos e ignorantes que fizeram no Facebook à minha foto na Marcha, provam que estas marchas continuam a ser cada vez mais necessárias. Mas estamos cá, somos muitos e não temos medo de sermos quem somos; o lema este ano era: “Nem Silêncio, Nem Medo: Existimos e Resistimos” e não podia estar mais certo. Nunca se esqueçam que a nossa identidade sexual ou de género não nos define como pessoas, somos muito mais que isso! Um feliz e alegre Pride para todos!

Sabem uma coisa? Os homofóbicos destilam ódio e a parada passa!




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