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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A PROPÓSITO DE “IT’S A SIN”

Três jovens homossexuais, Ritchie (Olly Alexander), Roscoe (Omari Douglas) e Colin (Callum Scott Howells), provenientes de meios diferentes, “fogem” para Londres nos anos 80, a fim de puderem viver a sua vida em liberdade. Os seus caminhos cruzam-se e acabam a partilhar o mesmo apartamento, juntamente com Jill (Lydia West) e Ash (Nathaniel Curtis). O que nenhum deles sabia é que muito em breve as suas vidas iriam mudar para sempre devido a uma nova doença chamada SIDA.

A série, da autoria de Russell T. Davies (QUEER AS FOLK), retrata o dia a dia deste grupo de amigos, como lidam com o aparecimento da SIDA e as consequências fatais que a mesma tem nas suas vidas; bem como a forma como as suas famílias reagem perante a aceitação ou não da sua homossexualidade e da doença.

 

Um convincente e, praticamente, desconhecido (exceção para Olly Alexander) grupo de jovens dá vida aos protagonistas principais deste drama. São secundados por algumas caras conhecidas, como os assumidamente gays Stephen Fry e Neil Patrick Harris, mas é Keeley Hawes, como a mãe de Ritchie, quem mais brilha no elenco. 

 

A série, que começa num tom mais ligeiro, vai-se tornando mais dramática e, diria, mesmo negra e forte. O seu criador, Russell T. Davies, não tem problemas em relatar o problema não só da SIDA, mas também da aceitação da homossexualidade, de forma crua e realista, sem “paninhos quentes”. Por isso e não só, esta série devia ser de visão obrigatória para toda a gente. 

 

As gerações mais novas parecem esquecer-se que ainda se morre de VIH e de SIDA. De acordo com um estudo que li em 2019, existiam no mundo 38 milhões de pessoas com VIH e morreram 690.000. Desde que esta doença foi diagnosticada, no mundo inteiro existiram perto de 75 milhões de casos, com cerca de 32 milhões de mortes. Números assustadores, certo?

 

Por cá, no relatório “Infeção VIH e SIDA em Portugal – 2020” da DGS, de Novembro 2020, com dados relativos a 2019, revela que no final de 2018 viviam em Portugal cerca de 41.000 infectados. Em relação a 2019 “foram diagnosticados 778 novos casos de infeção por VIH em Portugal, o que equivale a uma taxa de 7,6 casos/100 mil habitantes, não ajustada para o atraso da notificação. Foram ainda notificados 172 novos casos de SIDA e 197 óbitos ocorridos em 2019 em casos de infeção por VIH ou SIDA”. Os dados relativos ao período de 1983-2019, revelam mais de 61.000 casos e mais de 15.000 mortos. O relatório está disponível para consulta no link - http://hdl.handle.net/10400.18/7243

 

Voltando à série, logo no início, quando Ritchie vai de ferry para Londres, o seu pai oferece-lhe uma caixa de preservativos “para evitar que ele engravide alguma moça”. Com um sorriso malicioso nos lábios, Ritchie lança a caixa ao mar, selando assim o seu destino. Sim, por muito que não gostemos de usar o preservativo, este ainda continua a ser o método mais eficaz contra o VIH e outras doenças sexualmente transmissíveis. 

 

Claro que hoje, as coisas já não são tão dramáticas como foram nas décadas de 80 e 90, onde, acredito que todos nós, vimos morrer amigos e conhecidos. Nessa altura não havia PrEP e não se sabia que os pacientes que tinham carga viral indetetável dificilmente transmitiriam o vírus, nem sequer havia nenhum tratamento capaz de baixar dessa forma a carga viral. Mas atenção, estas duas situações apenas podem evitar a transmissão do VIH, mas não de outras doenças.

 

Ninguém é santo e quase todos nós, eu incluído, já estivemos em situações de risco. Por muita informação que tenhamos, a verdade é que às vezes no calor do momento, nos esquecemos disso e arriscamos a nossa sorte. Mais tarde, um pouco assustados, vamos fazer o teste à espera de que o resultado seja negativo, mas a verdade é que, se arriscámos, o mesmo pode ser positivo.


Um apontamento curioso na série, é o facto de um dos personagens mais promíscuos não estar positivo (ele próprio acha que é injusto) e o menos promíscuo estar. A vida é assim!

 

Tudo isto a propósito desta série, que nos fala de um tempo em que se morria com SIDA, nos piores casos com Sarcoma de Kaposi, onde ninguém sabia como lidar com a chamada “doença das bichas”. Morria-se sozinho e isolado do mundo. Direitos LGBT eram uma ilusão e pouca importância era dado a esta doença. Foi preciso morrer gente famosa como o Rock Hudson e o Freddie Mercury, para se começar a falar mais da doença e a procurar uma solução para a mesma. Talvez porque se achou e ainda se acha, que é uma doença que só aflige uma minoria, quase 40 anos depois do seu aparecimento, continua a não a existir uma vacina. Só para comparação, o COVID19 apareceu há pouco mais de um ano e já existem várias vacinas no mercado.

 

Isto já vai longo e longe de mim querer ser chato, mas ainda tenho algo mais para dizer. Ao contrário de outro tipo de doenças, o VIH e SIDA trazem consigo o síndroma da vergonha. Para o teres contraído é porque fizeste sexo, provavelmente com gays, ou então és drogado; felizmente ou infelizmente, a doença não é exclusiva destes grupos, mas ainda é assim que é vista pela sociedade em que vivemos.

 

Mais grave ainda, mesmo no meio LGBT, existe um forte estigma em relação aos portadores do VIH. Essas pessoas sentem-se postas de parte pela maioria e acabam por se isolar ou então de omitir que são sero-positivos, a fim de poderem ter uma vida sexual satisfatória. É pena que assim seja, pois seria mais seguro para todos se pudéssemos ser abertos em relação às doenças sexualmente transmissíveis (e porrra! Há tantas!) e tomarmos as devidas precauções de forma a que estas não se propaguem e o preservativo continua a ser um fiel aliado.

 

Depende de todos nós acabar com o estigma deste tipo de doenças e aprender a respeitar os portadores das mesmas, não os pondo de lado, mas sim aceitando-os e dar-lhes o apoio que necessitam... e o sexo também! Mas façam-no com cuidado! Se não nos apoiarmos uns aos outros, ninguém o fará. 


Agora deixo-vos em paz e vão lá ver a série ou amar alguém!







domingo, 10 de dezembro de 2017

O MEU NOME É MICHAEL (I Am Michael) de Justin Kelly

A História: Michael Glatze é um activista gay que vive com o seu namorado e com o amante de ambos. Um dia, provocado por um susto relacionado com a sua saúde, tem uma espécie de epifania religiosa, renuncia à sua homossexualidade e acaba por se tornar um “pastor” cristão.

O Filme: A história verídica de Michael Glatze causou polémica, mas duvido que este filme o faça. A seu favor tem o facto de o realizador/argumentista Justin Kelly (que viria a dirigir James Franco de novo em KING COBRA) não ter medo de mostrar os seus personagens masculinos a terem sexo uns com os outros, apesar de ser tudo muito soft. Por outro lado, a história arrasta-se de forma aborrecida e esperava sentir-me mais revoltado com o personagem.
No papel de Michael, James Franco está igual a si próprio, naquela linha tipo janado/depressivo, sempre com ar de chateado. O facto de ele ser pouco convincente, leva-nos a olhar para Michael como se este fosse uma fraude, o que provavelmente é verdade. Nas mãos de Franco, nunca acreditamos que Michael tenha conseguido renunciar aos seus desejos sexuais por membros do mesmo sexo.
O aspecto mais curioso é a forma como Michel deturpa os escritos da Bíblia, de forma a que estes se coadunem com aquilo que quer da vida (sendo o mais ridículo aquele em que ele interpreta os seus amantes como a santíssima Trindade). Sempre me fez confusão como é que as pessoas usam a religião para justificar as suas acções ou, por acharem que Deus fala com elas, têm o direito de julgar os outros ou de os obrigar a serem como elas. Claro que isto precisava de um filme dramaticamente mais forte que este, mas pelo menos o assunto é discutido num filme que poderá atrair um público mais diverso que a comunidade LGBT. Este é o aspecto mais positivo do filme.
Quanto ao restante elenco, Zachary Quinto não vai mal como o namorado de Michael, mas confesso que acho este actor um pouco irritante. Como o amante, Charlie Carver tem um ar simpático e facilmente cria empatia connosco, infelizmente o seu personagem tem pouco “tempo de antena”. Emma Roberts é Rebekah, a sonsa que se apaixona perdidamente por Michael e que o segue como se ele fosse um deus.

Classificação: 3 (de 1 a 10)




terça-feira, 15 de março de 2016

EN LA GAMA DE LOS GRISES (In the Grayscale) by Claudio Marcone

The Plot: Bruno (Francisco Celhay) is a successful architect who is kind of separated from his wife and son. In order to get inspired for his next big project, he has to work with a local guide, Fer (Emilio Edwards), who happens to be gay and soon a romance blossoms between them.

The cast: Francisco Celhay and Emilio Edwards are both very believable in their roles, the first one as a problematic man who don’t know if he wants to get out of the closet, and the second one as a lively open and sexy gay man. Both actors are completely at ease with their bodies and their more intimates scenes. In the role of Bruno’s wife, Daniele Ramírez plays a sensitive role.

The Movie: For his first movie, director Claudio Marcone gives us a truthful portrait about the coming out of a married man who doesn’t feel comfortable in his skin. Things start slowly and Marcone isn’t in a hurry to have his two male leads falling in love, but when it happens it’s realistic and hot. The fact that both leads aren’t the prototype male models we see in gay magazines, make it more real. Marcone makes us feel the fear, desires and anguish of the characters. Without revealing too much, let me say that by the end I felt that something was missing; it was kind of frustrating.  Well, maybe I’m too accustomed to the American cinema. 

My Rate: 6 (from 1 to 10)


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

I WANT YOUR LOVE – Travis Mathews

(Scroll down to read the review in English)

A História: Jesse (Jesse Metzger) decidiu deixar San Francisco e ir viver para o Midwest. Um grupo de amigos decide fazer-lhe uma festa de despedida.

O Melhor: A intimidade das cenas de sexo.

O Pior: Já estou um bocadinho farto de gajos depressivos, que andam sempre à procura de algo e a viver uma crise de identidade.

Os Actores: Um grupo de desconhecidos interpreta com naturalidade os personagens e todos estão há vontade com a sua sexualidade.

O Filme: O realizador Travis Mathews dá-nos um retrato honesto de um grupo de gays de San Francisco, convidando-nos a partilhar a sua intimidade, sem vergonha ou artificialismos. As explícitas e excitantes cenas de sexo são tão naturais que nos esquecemos que estamos a ver um pouco de pornografia hardcore. Só é pena que não haja uma história mais interessante para envolver a acção. Preparem-se para ficarem com tusa!

Classificação: 6 (de 1 a 10)

I WANT YOUR LOVE – Travis Mathews

The Plot: Jesse (Jesse Metzger) is going to leave San Francisco and return to the Midwest. A group of friends decide to give him a farewell party.

The Best: The intimacy of the sex scenes.

The Worst: I’m a bit tired of depressed guys who are always looking for something and living an identity crisis.

The cast: A group of unknowns play the roles naturally and at ease with their sexuality.

The Movie: Director Travis Mathews gives us an honest portrait of a group of San Francisco gay men, inviting us to share their intimacy, without any kind of shame or gimmicks. The explicit and exciting sex sequences are so naturalistic that you forget you are seeing a little bit of hardcore porno. I just wish there was a more interesting story to wrap all the action. Be prepared to have a hard-on!

My Rate: 6 (de 1 a 10)




terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O JOGO DA IMITAÇÃO (The Imitation Game) de Morten Tyldum

Na Segunda Guerra Mundial, os nazis usavam uma máquina de mensagens encriptadas de nome Enigma que deixava os Aliados às aranhas. A fim de tentarem desvendar o código da mesma, os serviços secretos reúnem um grupo de matemáticos e criptógrafos liderado por Alan Turing, um génio anti-social e homossexual.

Uma coisa que por vezes me chateia nas histórias verídicas é que já sabemos como tudo vai acabar, não havendo muito lugar ao suspense. Neste caso particular sabemos logo à partida que Alan Turing e seus colegas conseguiram desvendar os mistérios da Enigma, bem como que mais tarde Turing foi condenado pela sua homossexualidade, então ilegal face à lei.  O facto de que mesmo assim fiquei preso ao ecrã, desejoso que eles conseguissem vencer a Enigma, é prova do talento do realizador Morten Tyldum. Ele consegue tornar a história emocionante, doseia o drama com a dose certa de humor e dirige o elenco com mão de mestre. Ao contrário do que esperava, o filme é tanto sobre o descodificar da Enigma como sobre a homossexualidade de Turing e como à época a mesma lhe destruiu a vida.

No papel de Alan Turing, Benedict Cumberbatch é simplesmente fabuloso, provando uma vez mais todo o seu talento e versatilidade. O seu Turing, apesar de anti-social e arrogante, é humano e emotivo. Sem dúvida uma interpretação digna de um Óscar. O expressivo Alex Lawther também revela grande talento como o jovem Turing. Como a única personagem feminina do grupo, Keira Knightley está à altura do desafio e está no seu melhor.

Eu sei que ainda estamos em Janeiro, mas este filme é já um sério candidato à minha lista dos melhores do ano. Recomendado para quem gosta de boas histórias e de excelentes interpretações. Classificação: 8 (de 1 a 10)



quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O DESCONHECIDO DO LAGO (L’Inconnu du Lac) de Alain Guiraudie

Um lago no meio de um bosque; local de eleição de vários gays que se despem à beira da água e que se aventuram em engates no meio do arvoredo. Franck, um jovem gay à procura do próximo engate, mete conversa com Henri, um homem solitário que não assume a sua sexualidade. Entretanto Franck vislumbra Michel, um novo frequentador do local, e fica interessado neste, só que ele tem um namorado. Dias mais tarde Michel afoga o seu namorado, sem saber que Franck o observa, mas nem assim este perde a atracção por ele.

Acho que posso dizer que este filme se trata de um thriller gay, a roçar o soft-core e com algumas cenas mais ousadas. A história é interessante e gostei do facto do “desconhecido do lago” poder ser qualquer um dos seus personagens principais, pois pouco ou nada sabemos deles e eles pouco ou nada sabem uns dos outros. Tal como um inspector da polícia os interroga, como é que é que é possível fazerem sexo uns com os outros sem sequer saberem os seus nomes. Nesse aspecto o realizador Alain Guiraudie não teve qualquer tipo de preconceitos em mostrar a realidade crua e sexual de um certo estilo de vida gay. Pode chocar, mas é verdade!

Outra coisa que me agradou é o desejo de morte revelado, directa e indirectamente, pelo trio de personagens principais. O facto de Franck não estar minimamente preocupado em fazer sexo sem preservativo é disso sinónimo. O problema do filme é que na sua primeira parte pouco ou nada acontece. A acção arrasta-se por muitas cenas de engate e sexo, algumas sem dúvida excitantes, e pouco mais. A nudez é revelada sem tabus, bem como o sexo. Noutros tempos o filme levaria o carimbo “este filme contém cenas eventualmente chocantes”. Mais perto do final, ganha uma atmosfera ameaçadora que podia ter sido mais bem explorada e que devia ter começado mais cedo.

Como Franck, Pierre Deladonchamps entrega-se sem receios às cenas de sexo e a sua paixão/medo é bem construída. O sexy Christophe Paou é o perigoso Michel; ele emana sexo por todos os seus poros e não é de estranhar que seja um objecto de desejo. Por fim temos Patrick d’Assumçao como Henri, o personagem mais interessante dos três, a que d’Assumçao dá a credibilidade necessária.

O filme ganhou a Palma Queer no Festival de Cannes deste ano, mas isso não fez dele um grande momento de cinema. Foi feito a pensar no público gay e com as suas, por vezes, gratuitas cenas de sexo, duvido que desperta a atenção do outro público. Classificação: 7 (de 1 a 10)

INTERIOR. LEATHER BAR. de James Franco e Travis Mathews

Este pseudo-documentário tem como “missão” re-imaginar os 40 minutos que foram cortados do filme CRUISING (por cá chamou-se A CAÇA), a fim de este não ser considerado pornográfico.

Para quem nunca viu esse filme, contava a história de um polícia (Al Pacino) que, com o fim de apanhar um assassino, é obrigado a introduzir-se no negro universo sado-masoquista de alguns bares gay. À data, o filme era forte e causou muita controvérsia mas, até ouvir falar deste documentário, não sabia que tinham cortado 40 minutos. Confesso que fiquei muito curioso sobre o conteúdo das cenas cortadas; será que alguma vez vamos ver o filme na íntegra?

Em vez de esperar pela versão integral, o actor James Franco juntou-se ao realizador Travis Mathews e decidiram recriar as cenas perdidas. Para o efeito, com Franco a servir de engodo, conseguiram reunir um grupo de actores homossexuais e heterossexuais e criar o ambiente de um desses bares no espaço de uma garagem (o aspecto mais conseguido deste docuemntário). Assim, sem qualquer tipo de inibições, temos umas cenas explícitas de sexo gay e muita conversa.

Se a ideia era fazer um documentário em que, com excepção das cenas de CRUISING, o resto fosse muito natural e improvisado, a mim não me convenceu. As conversas sobre os direitos dos homossexuais, a liberdade da expressão sexual, ou mesmo o dilema do actor Val Lauren, soa tudo a ensaiado. Lauren, no papel do personagem interpretado por Al Pacino, não está nada à vontade e ao mesmo tempo está completamente em “over-acting” (a cena em que dança é ridícula).

Quanto às cenas de sexo, duvido que a protagonizada por um simpático casal gay tivesse lugar no filme e achei-a gratuita e fora de contexto. Não tenho nada contra sexo, gosto muito e, como toda a gente, também vejo porno; mas este documentário é decepcionante e não faz nada para mudar ideias ou comportamentos. Duvido que algum heterossexual tenha interesse em ver o filme ou ganhe alguma coisa em vê-lo, a não ser que seja um grande fã de James Franco, que por sua vez pouco ou nada faz, enganando toda a gente, actores e público, que pensaram que o iam ver numa cena gay. Classificação: 2 (de 1 a 10)